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Games são arte?


 por Aline Ridolfi, Estado de São Paulo


Matéria de Aline Ridolfi originalmente publicada no caderno Link do jornal Estado de S. Paulo em 17 de fevereiro de 2013.

O MoMA abre em março sua mais nova exposição com uma coleção de 14 games e divide opiniões sobre o valor artístico dos jogos
NOVA YORK – A nova seção do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York divide opiniões. A partir de março, as obras de Frida Kahlo, Henri Matisse, Andy Warhol e Pablo Picasso que fazem parte do acervo permanente vão dividir as atenções dos visitantes com Pac-Man, Sim City e Minecraft, entre outros games, adquiridos pelo museu.
A decisão foi considerada ousada mesmo para um dos mais importantes museus de arte do mundo. “Estamos muito orgulhosos de anunciar que o MoMA adquiriu uma seleção de 14 games, os primeiros de uma lista de cerca de 40 a serem adquiridos em um futuro próximo”, disse com entusiasmo Paola Antonelli, curadora sênior do departamento de arquitetura e design do MoMA. O museu inaugura oficialmente em 2 de março não apenas a exposição desses itens, mas também uma nova seção para comportá-los.
Quem passar pela galeria Philip Johnson vai visualizar e interagir com os títulos escolhidos. Em uma viagem pelo tempo, os visitantes vão poder observar a evolução dos jogos desde os primeiros games produzidos em massa, com Pac-Man (de 1980), até versões mais elaboradas e recentes, como Canabalt, lançado quase 30 anos depois. Quem quiser também vai poder jogá-los no museu.
“Videogames são o melhor exemplo de design interativo. Nosso trabalho no museu é documentar o que acontece de relevante para a sociedade”, disse Paola Antonelli ao Link. Responsável pela escolha dos títulos incluídos no acervo, a curadora confessa que ela e sua equipe – composta por gamers de todos os níveis, acadêmicos, especialistas em conservação e distribuição digital, historiadores e críticos – fizeram questão de testar pessoalmente inúmeros jogos para garantir que a seleção representasse o conceito da coleção.
Nova estética. Mas videogame é arte? Para Paola, a resposta é sim e está documentada em um post assinado por ela no blog do MoMA. Quando perguntada a respeito ela não nega, mas enfatiza o caráter de registro que justifica a iniciativa do museu. “Não criamos hierarquias. Os videogames são artefatos que realmente representam a cultura e o design da nossa época”, diz.
Como em todas as outras coleções do museu, a intenção da curadoria é valorizar “itens que combinem relevância histórica e cultural, expressão estética, visões inovadoras de tecnologia e comportamento, e uma boa síntese de materiais e técnicas que alcancem sua meta inicial”, afirma Paola.
Christiane Paul, curadora adjunta de artes das novas mídias do Museu Whitney de Arte Americana e autora do livro Digital Art (sem edição brasileira), diz que os games são “uma nova forma de cultura” e reconhece a importância da aquisição do MoMA também pelo registro histórico. Mas, apesar de acreditar que os games são representantes da nossa era, Christiane discorda do valor artístico da coleção. “Não acredito que videogames se são uma forma de arte no contexto das belas artes – do mesmo jeito que jogos de tabuleiro e de carteado ou revistas e jornais também não podem ser considerados arte”, diz ela. “Qualquer tipo de jogo envolve a arte do design gráfico, ou escultura, ou design interativo, mas isso não significa que o game em si possa ser considerado automaticamente uma obra de arte.”
Muitos jogos são violentos, o que pode parecer antiético do ponto de vista artístico, mas eles também têm cenários complexos e sofisticados dignos de – por que não – uma obra de arte. “Não consideraria Quake ou Doom obras artísticas, mas ao mesmo tempo não nego que eles são fundamentais para a história da representação gráfica em mundos virtuais”, diz ela
Para os que pensam que os videogames são apenas brincadeiras de criança (ou de adultos imaturos), o MoMA rebate afirmando que eles não só são retratos de uma geração como também podem ser considerados itens revolucionários – aproximando essa nova coleção de outras mais tradicionais.
Como pontuam seus apoiadores, os cenários e narrativas desenvolvidos nos jogos ganham vida através do comportamento de seus jogadores, não só individualmente, mas também no coletivo. Um jogo criado com um propósito específico pode ser usado de forma educativa, social, para testar novas experiências e até mesmo induzir emoções.
A passagem por cenários diferentes, as narrativas não-lineares que desafiam a compreensão espaço-tempo e a evolução estética das novas tecnologias são todos elementos que devem ser levados em conta para fazer a análise de um jogo digital, assim como em grandes obras de arte. “Existem alguns projetos de games que podem ser considerados arte, e arte em games tem se tornado um gênero importante da prática artística nos últimos 15 anos”, diz Christiane. “Porém, se todos os games que o MoMA adquiriu podem ser considerados arte é uma questão que segue em discussão.

http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/005351.html

(Erinaldo Alves)

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