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De barras e couraças: identidade e despersonalização na arte de Cátia Machado.




Uma indagação colocada na discussão sobre a presença da fotografia na arte contemporânea local aponta para que sua grande incidência se deve à inaptidão dos novos artistas em lidar com meios tradicionais, especialmente o desenho representacional. Não é este o caso de Cátia Machado, jovem artista portuguesa que expõe “id-identidade”, na Galeria Conviv’art, até dia 31 próximo. Muito pelo contrário, a artista detém esta capacidade e a demonstra nas quase afetadas composições (desenho) de suas fotografias. Digo quase afetadas, pois nelas percebo um visível rigor premeditado. Neste exercício, a artista vai além de assumir uma postura modernista, no que se refere ao uso e organização do espaço bidimensional; suas imagens também incorporam soluções barrocas, o que se respalda, inclusive, nos fortes contrastes tonais, talvez oriundos de Caravaggio ou do claro-escuro de Rembrandt e obtidos segundo um estudado esquema de iluminação.
Essa presença pictórica parece constatar o que a artista me escreveu numa mensagem: “tudo é pintura”. E é esta aura de pintura que envolve o processo de hibridização que se estabelece nas relações entre a performance, o trabalho fotográfico e as operações eletrônicas, tudo notadamente concatenado pela “direção” feita pela artista. Neste amálgama ainda se percebe que a ação performática fotografada é, em si, híbrida com um tipo de escultura que remete a Christo e Jeanne-Claude e seus pacotes de edifícios, pontes e acidentes geográficos. Cátia, porém, empacota completamente o próprio corpo, como se o vestisse para o embate identitário do indivíduo na sociedade hodierna. É uma vestimenta como uma couraça sobre a qual se projetam imagens de códigos de barra transfigurados em grades prisionais. O corpo, como materialização do id, é exposto em cativeiro, por trás das grades, atado por cordas e fios metálicos, ainda mesmo quando despido. Um corpo (feminino) à venda, como um objeto de mercado na vitrine congelada da imagem fotográfica.
Com este complexo midiático e suas configurações, a artista se lança numa discussão sobre o status do homem no mundo contemporâneo, buscando sinalizar a despersonalização do indivíduo e sua substituição por aparatos informáticos. A pessoa, o id, está anulada pelas amarras das convenções ao mesmo tempo em que é espetacularizada, embelezada por um design que a prepara para a comercialização. A identificação, no contexto, se reduz à frieza de um grafismo de dureza geométrica e a números que se assemelham a ferraduras, marcas de um incógnito dono de uma manada onde cada ente, (cada ser humano), se mantém isolado em sua solidão. Mesmo quando, numa das séries que compõem a mostra, é multiplicado às dezenas. A multiplicação/repetição parece ser, então, mais uma afirmativa da anulação da identidade.
Não obstante a agrura do assunto, que leva a considerações de ordem psicanalítica, para as quais o próprio título da exposição chama a atenção, além daquelas de ordem diretamente sócio-antropológicas, o discurso visual assim construído, longe de ser maçante, atrai pela elegância e mesmo bela beleza, num sensível exercício de comunicação visual.
A arte explica.

Por Vicente Vitoriano
Leia também em http://vvitoriano.multiply.com

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