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segunda-feira, 2 de março de 2009

A Arte e o Ponto de Vista do Artista

Segundo muitos estudiosos, a palavra “artista” pronunciou-se pela primeira vez no séc. XV, em Florença, mas esta palavra só conheceu o sentido usual utilizado em nossos dias, por volta do séc. XVIII, em pleno Romantismo, quando os artistas não só se livraram dos diretivos da Igreja, mas também das cortes européias.

Canclini (1984, p.99) diz que esta autonomia só ocorreu na medida que o mercado interviu entre a produção das obras e seu consumo. Isto propiciou ao artista ignorar quem seria seu público, quem adquiriria seu trabalho ou que uso se faria dele. Consequentemente, diante deste usuário desconhecido, o artista pode acreditar que era livre e criar sua própria obra com toda a “independência”.

Gostaríamos inicialmente de ressaltar, que a tentativa de desvendar o pensamento do artista acerca do seu conceito de Arte, não é uma tarefa muito fácil, pois são poucos aqueles que deixam registro de seus pensamentos sobre o próprio trabalho; quando o fazem, direcionam mais para o processo artístico, do que para o significado da sua produção.

Encontramos nos estudos de Pareyson (1997, p.21-25), um apoio imprescindível para chegarmos a alguma resposta. Pois, Pareyson afirma que para entendermos a Arte na história do pensamento ocidental, precisamos conhecer que esta se desenvolveu por três vias de reflexões estéticas: a arte como um fazer, a arte como um exprimir e arte como um conhecer; todas no decurso da história, ora se contrapondo e se excluindo uma às outras, ora, pelo contrário, se aliando e se combinando de várias maneiras.

Na Antiguidade, Pareyson afirma que há a prevalência da arte como fazer, onde se acentuava o aspecto executivo, fabril e manual. O conceito de mimesis abriu caminho para a idéia de Arte como imitação, a beleza do trabalho consistia no seu poder de semelhança com a realidade, um espelho que refletisse o homem e a natureza.

Porém, como já citamos anteriormente, durante a antiguidade até a Idade Média, as palavras “Arte” ou “Artistas” não tinham significado, considerava-se artista qualquer um dos trabalhadores artífices. Na Grécia antiga, cada artífice é um especialista no “bem” de seu ofício em particular, por exemplo, um sapateiro é perito no fabrico de sapatos, o carpinteiro na produção de moveis, etc. Segundo Osborne, Platão encontrou dificuldade para encaixar os artífices que chamamos de “artistas”, porque o valor social das “finalidades” dos seus ofícios não eram muitos claros.

“Um sapateiro é perito no fabrico de sapatos de verdade, o carpinteiro na produção de mesas e cadeiras. O pintor, contudo, produz imitações ou cópias irreais de sapatos, cadeiras, mesas e de todas as coisas visíveis, sem ser perito em coisa alguma. (1970, p.34).

Quer dizer, se o valor de qualquer manufatura é a sua utilidade, então a utilidade de um sapato pintado é inferior à um sapato de verdade.

Mas, realmente quem vai trazer uma nova dimensão de realismo e veracidade a arte da pintura, é Leonardo da Vinci, quando cria durante o Renascimento, o sfumato. Para ele: “A pintura deve ser anteposta a todas as operações, porque em si contém todas as formas que estão e as que não estão na natureza.” (Bosi, 1986, p.35). Leonardo, evidencia o seu conceito como erudito ou cientista, e é uma daquelas exceções que fogem à regra, pois no seu trabalho estão os pressupostos da arte como reflexão de um conhecimento.

Gadner (1997, p.334) relata que nos seus estudos que Messerschmidt, com intuito de capturar melhor os detalhes do morrer, mata seu próprio modelo e de muitos outros artistas que por cometerem erros pela falta de detalhes insignificantes, cometeram o suicídio.

A partir do Romantismo, momento de intensa revolução na história, quando floresceram novas idéias e novas esperanças. Os românticos acreditavam fielmente na liberdade individual. Pareyson afirma que tornou-se hegemônica a arte como expressão, fazendo com que a beleza desloca-se para a íntima coerência das figuras artísticas com os sentimentos do artista.

Em Para Entender a Arte, Cumming (1995) em suas análises sobre as grandes obras primas da história da Arte ocidental mostra que Géricault falando sobre a “A Jangada do Medusa” pintada em 1819, hoje no Museu do Louvre, expressava que “Nem a poesia nem a pintura jamais poderão fazer justiça ao horror e à angústia dos homens na jangada.” Já Constable sobre seu trabalho dizia “Devo pintar melhor os lugares que são meus – pintar não passa de um sinônimo de sentir.”

Finalmente, Pareyson afirma que no decurso de todo o pensamento ocidental, há também a influência da arte como conhecimento, onde o aspecto executivo e exteriorizador passam a ser secundários.

Na modernidade, com advento dos meios de cópia, como a fotografia, a teoria da arte como simples “imitação da natureza” cai a baixo. A pintura passa a forçar o observador a vê-la pelo que ela é. Bosi (1986) em seu livro Reflexões sobre a Arte, nos mostra que certa vez, Matisse, ao abordado por uma dama a propósito de um dos seus quadros, falou “Mas eu nunca vi uma mulher como essa!”, prontamente ele replicou, “Madame, isto não é uma mulher, é uma tela”. Da mesma forma, Frank Stella dizia “minha pintura baseia-se no fato de que apenas o que se pode ver nela está nela. É na realidade um objeto. O que se vê é o que se vê.”

Em Merleau-Ponty (1990) encontramos mais um flash esporádico, onde Mark Ernst falava que “Assim como o papel do poeta, desde a célebre carta do vidente, consiste em escrever sob a inspiração do que se pensa, do que se articula nele, o papel do pintor é cercar e projetar o que nele se vê.”

Analisando todos esses depoimentos, chegamos a conclusão que o conceito de Arte do criador esta ligado diretamente com as concepções de mundo que o artista esta inserido. E Finalizaremos nossa argumentação, parafraseando Duchamp dizendo:

“Fomos nós que demos o nome ‘arte’ às coisas religiosas, entre os primitivos, a palavra arte, em si, não existia. Nós a criamos pensando em nós mesmos, em nossa própria satisfação. Nós a criamos única e exclusivamente para nosso próprio uso: é um pouco, uma forma de mastubarção.” (Cabanne, p.169-170).
Referências Bibliográficas
BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a Arte. São Paulo: Editora Ätica, 1986.
CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: Engenheiro do Tempo Perdido. São Paulo: Perspectiva, 1987.
CANCLINI, Nestor García. A Socialização da Arte: Teoria e Prática na América Latina. São Paulo: Cultrix, 1984.
CUMMING, Robert. Para Entender a Arte. São Paulo: Ed. Ática, 1996.
GARDNER, Howard. As Artes e o Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
MERLEAU-PONTY, H. O Olho e o Espírito. Coleção Os Pensadores, Abril Cultural, 1990.
OSBORNE, Harold. Estética e Teoria da Arte: Uma Introdução Histórica. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1970.
PAREYSON, Luigi. Os Problemas da Estética. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
(José de Vasconcelos Silva)

2 Comentários:

Carlos Musashi disse...

Essa frase do Matisse foi ótima.
Numa sociedade dita da informação, a tendência é querer tentar resumir tudo com palavras. As artes visuais possuem seu próprio vocabulário de conceitos da linguagem gráfica e não deve ficar refém da literatura, outra vertente com outras leis.

Anônimo disse...

Carlos, obrigado pela participação. Sobre seu comentário enquanto artista, gosto quando você destaca em suas palavras a “independência” da intenção do autor. Acredito que toda obra de arte possui uma linguagem pessoal e peculiar. Trevisan em seu livro "Apreciando a Arte" destaca que em artes não existe certezas, e se existir é o que menos interessa.
Contudo, enquanto estudioso e pesquisador da arte, penso que a influência de outras linguagens são importantes e imprescindíveis para o progresso e entendimento da arte. É importante lembrar que a produção artística é fruto de interesses individuais e coletivos de um autor, e este, consequentemente vai ser influenciado pelo seu tempo e conhecimento que o cerca. A arte moderna, por exemplo, é a maior expressão da arte sendo influenciadas por outras linguagens, seja filosoficamente, tecnicamente, psicologicamente e principalmente, do campo científico.
Entendo o que você prega a autonomia da arte enquanto ciência e forma de conhecimento do mundo. Mas acredito que comungar com outras linguagens ou formas de expressões de maneira nenhuma desqualificar ou tira o mérito das artes. Hoje se pensa a arte no campo educacional enquanto disciplina que consegue comungar com todas as outras linguagens pelo seu caráter interdisciplinar e transdisciplinar. Da mesma forma, apesar de ter uma linguagem própria, a arte não se distancia de outras linguagens para interpretação de suas mensagens.
Um abraço, Vasconcelos

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