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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O último de uma longa linhagem

Ao longo de 31 anos, Montebello e o Metropolitan praticamente se fundiram em uma só instituição

Tonica Chagas

Com a gestão mais longa entre os diretores dos principais museus do mundo, Philippe de Montebello está à frente do Metropolitan Museum, de Nova York, há 31 anos. Aos 72 de idade e enfrentando a difícil recuperação de uma cirurgia nos dois joelhos feita em janeiro do ano passado, ele decidiu se aposentar e vai deixar o Met em 31 de dezembro. Para homenageá-lo, os curadores do museu prepararam uma despedida em grande estilo, numa exposição com cerca de 300 das mais de 84 mil obras de arte acrescentadas ao acervo na gestão dele. Com seu porte e qualidade, The Philippe de Montebello Years: Curators Celebrate Three Decades of Acquisitions marca o fim de uma era.

O tributo a Montebello toma conta de 11 salas no maior espaço de galerias do Met. A exposição fica em cartaz ali até 1.º de fevereiro, mas as imagens e descrições das obras que a compõem poderão ser vistas por muito tempo ainda no website do museu (metmuseum.org). O catálogo que a acompanha foi colocado integralmente na internet, algo inédito para a instituição que, com a média de 25 a 30 catálogos lançados por ano, é o principal publisher de livros de arte nos Estados Unidos.

As obras selecionadas pelos chefes dos 17 departamentos curatoriais foram agrupadas nas galerias conforme o ano em que passaram para o acervo do Met. O óleo sobre tela de Vermeer , Estudo de uma Jovem, criado por volta de 1665 e que entrou para as coleções do museu em 1979, é vizinho, por exemplo, de uma estatueta indiana que representa o Buda oferecendo proteção, de fins do século 5º, adquirida naquele mesmo ano. Entre aquisições de 1993, o quadro em que Picasso se retratou como um arlequim e deu de presente ao dono do bar Lapin Agile, na Montmartre de 1905, e o Campo de Trigo com Ciprestes, pintado por Van Gogh em 1889, compartilham atenções com uma espada turca do início do século 16 e as imagens criadas por Sigmar Polke, em 1975, a partir de fotos tiradas num bar de São Paulo.

Na montagem da exposição, o diretor fez dois pedidos aos curadores. O primeiro: a inclusão de obras de Lorenzo de Monaco (c.1370-1425) e Salvator Rosa (1615-1673) que ele defendeu a compra pelo museu em 1965, no início de sua longa carreira na casa, quando era curador-assistente no Departamento de Pintura Européia. O outro, que houvesse destaque para desenhos pelos quais ele tem apreço especial. Com o título de The Philippe de Montebello Years, a última galeria é uma fantástica exposição dentro da exposição, com obras sobre papel produzidas por gênios como Da Vinci, Michelângelo, Ticiano, Rafael e Poussin, entre outros, adquiridas pelo Met nos últimos 15 anos.

UMA SÓ INSTITUIÇÃO

Oitavo diretor do Metropolitan desde a fundação do museu, em 1870, Guy-Philippe Henri Lannes de Montebello é visto como o último de sua espécie no ambiente dos grandes museus internacionais, um intelectual nascido na primeira metade do século 20 que passou para o século seguinte com valores alimentados pelo iluminismo. Filho de um conde que integrou a Resistência francesa na 2.ª Guerra e parisiense de nascimento, ele mudou aos 13 anos de idade para os Estados Unidos. Formou-se em Harvard e fez mestrado em história da arte no Institute of Fine Arts da New York University.

Fora o período entre 1969 e 1974, em que dirigiu o Museum of Fine Arts de Houston, no Texas, ele passou toda sua carreira no Metropolitan, onde começou a trabalhar em 1963. Ao voltar para o museu nova-iorquino, assumiu o posto de vice-diretor para assuntos de curadoria e educacionais. Em 1977, tornou-se diretor do museu e, em 1998, somou a essa função a de diretor-presidente.

Uma função a que, dadas as atuais características de museu como empresa, ele não tem muita estima. "A pessoa que eu era 30 anos atrás não seria nem remotamente qualificada para este emprego", comentou ele numa entrevista no ano passado. "Eu também não ia querer porque, francamente, não gostaria de gastar tanto do meu tempo com questões não relacionadas a arte." Além de responsável por um patrimônio com cerca de 2 milhões de peças que representam 5 mil anos de cultura, o diretor do Met chefia em torno de 2.600 funcionários, desde curadores a empregados das áreas de operações, construção, desenvolvimento, marketing, finanças e outras necessárias para o funcionamento do museu.

O Met é visitado por cerca de 4,6 milhões de pessoas por ano, o que o distingue como a maior atração turística de Nova York. Na gestão de Montebello, ele praticamente dobrou de tamanho, com a construção de novas alas na década de 70 e uma expansão interna iniciada nos anos 90 que produziu, por exemplo, as belas galerias para arte helenística, romana e etrusca com que o visitante se depara no primeiro andar - um projeto de US$ 220 milhões.

Fluente em francês, inglês, italiano, espanhol e alemão, Montebello é a voz mais conhecida do Metropolitan. Nessas línguas, é ele quem instrui os visitantes sobre centenas de obras de arte nos audioguias do museu. Ao longo de três décadas, o diretor e o Met praticamente se fundiram como uma só instituição. Obviamente ele não é uma unanimidade e há quem o critique como elitista, eurocêntrico, antiquado e intransigente. Mas não há como lhe negar respeito. "O Met que Montebello passa para o século 21 é uma das mais grandiosas realizações do país", escreveu Michael Kimmelman, crítico do The New York Times.

Ao deixar o museu, Montebello vai voltar para o Institute of Fine Arts da New York University, desta vez como o primeiro professor de história e cultura de museus. Além da posição acadêmica, ele vai ser um dos conselheiros da NYU para a criação do seu câmpus em Abu Dhabi, que deve ser inaugurado em 2010.


Disponível em : http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081202/not_imp286933,0.php


Karlene Braga

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