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A arte sem barreiras de Célio Furtado


Por: ASTIER BASÍLIO



SUPERACAO - Célio termina um dos quadros que estão expostos no Tererê: “Costumo dizer: eu não consigo espetar uma azeitona, mas eu pinto um quadro de 1m80”.
O nome da fazenda é bem sugestivo, Retiro. Localizada em Cuité, foi pra lá que o artista plástico Célio Furtado se refugiou para compor os oito quadros de sua exposição ‘Pintando’ na Cidade... O material pode ser visto no restaurante Tererê, localizado na orla do Cabo Branco, João Pessoa. O tema do trabalho são as paisagens arquitetônicas do Centro Histórico da capital, cidade em que o pintor mora há sete anos. A exposição é patrocinada pelo Fundo Municipal de Cultura (FMC) de João Pessoa.
“Eu me escondi. Me dediquei de tempo integral ao trabalho”, conta Célio. De acordo com o artista, o melhor horário para se pintar é entre 7h e 17h. “Pintar à noite prejudica, pois a luz artificial nos engana e tendemos a exagerar nos contornos, deixando o quadro pesado”.
Célio é figurativo. Contornos, imagens, tudo é evocado com detalhe. A busca é a reprodução da realidade e a busca da perfeição.
Para esta exposição, cujo processo de trabalho durou, ao todo, quatro meses de dedicação exclusiva, o artista plástico convidou a fotógrafa Roberta Monte. Os dois sairam juntos, subindo e descendo ladeiras. “Você deve saber que para a fotografia existe aquela hora mágica, próximo ao pôr-do-sol, quando a luz cobre tudo de amarelo, de ouro”, contou Célio.
Porém, mais do que ver in loco a paisagem que seria a base de inspiração para os quadros, Célio viu como está a acessibilidade do Centro Histórico. Ele é tetraplégico e jornalista e descreveu a experiência. Leia um trecho: “Sobre rodas, pisarei firme com o cuidado de não tropeçar. No circo da vida tudo é muito solto e imprevisível. O chão é mais duro que qualquer chão, a realidade mais crua que qualquer realidade. Irei assim mesmo, sobre rodas, sem redes.”
Foram tiradas 80 fotografias. Destas, Célio escolheu as que mais se aproximavam de seu trabalho. A dimensão dos quadros varia de 80cm por 1m30 e os maiores com 1m por 1m80, que é a dimensão máxima que Célio Furtado consegue. “Esse tamanho dá para pôr em um sofá de quatro lugares”, explica. Célio, por conta de sua deficiência física, desenvolveu um método. As partes do quadro que ele não alcança são pintadas de cabeça para baixo. “Cerca de 30% dos meus quadros são pintados assim, invertidos, pois, foi a maneira que eu desenvolvi para fazer pinturas maiores. Antes eu só pintava quadros menores”, informa.
A forma como Célio Furtado segura o pincel também é diferente. O instrumento é atravessado entre os seus dedos. “Costumo dizer: eu não consigo espetar uma azeitona, mas eu pinto um quadro de 1m80”.
Superação é uma constante na vida de Célio Furtado. A vontade de se aperfeiçoar o fez escrever uma carta para o então presidente da República, o general João Baptista Figueiredo. Foi no ano de 1983. “Era a minha vontade de aprender, de querer”, diz. Pouco menos de 20 dias, o presidente respondeu. Foi assim que ele conseguiu uma bolsa de estudos no curso de Belas Artes do Rio de Janeiro. “Eu fiquei na Escola de Campo, de Niterói, que é uma extensão da escola do Rio”.
Depois do curso, mais precisamente três anos depois, Célio criou coragem e começou a pintar profissionalmente. De lá para cá já foram dezenas de exposições individuais, várias coletivas e um ateliê montado e funcionando na rua Campos Sales, no Centro.


Disponível em : http://jornaldaparaiba.globo.com/v2008/vida.php?id=23211&IDNOT=6&rqv=y


Karlene Braga

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