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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Exposição com material do 'JB' é remontada 40 anos depois no MAM

Monique Cardoso, Jornal do Brasil

RIO - O edital foi lançado, os artistas selecionados, a curadoria escolheu as obras, a montagem no Museu de Arte Moderna foi feita com esmero, os convidados apareceram no coquetel de inauguração, mas a exposição não foi aberta ao público, não foi vista por ninguém.

Em 1969, a ditadura militar censurou os trabalhos que seriam exibidos na Bienal Jovem de Paris no mesmo ano e que seriam expostos, primeiro, no Rio. A prestigiosa feira internacional de arte ficou sem representação brasileira. Agora, 40 anos depois, parte desse material foi reunido na mostra Pré- Bienal de Paris 1969, uma das cinco que o MAM inaugura amanhã para comemorar os 60 anos de fundação.

A mostra traz obras de nomes como Artur Barrio, Humberto Espíndola, Evandro Teixeira e Antonio Manuel. Outras exposições tratam da construção do prédio do museu; da formação do acervo; da arte brasileira entre 1963 e 1978 (ano do incêndio que destruiu quase todas as obras); e da atuação da cinemateca da instituição, a segunda do país em arquivo.

– A proibição da exposição Pré-Bienal de Paris foi, nos anos de chumbo, o episódio em que as artes plásticas enfrentaram a censura – resume o curador do MAM, Reinaldo Roels Jr.

– Nessas cinco mostras estamos enfocando o período mais denso da história do museu, que teve a maior participação dos artistas em tudo o que acontecia.

As atas da época e uns poucos recortes de jornal ajudaram Roels a chegar à lista das obras feitas para a Bienal de Paris, que na época tiveram curadoria de Heloísa Lustosa.

Não havia uma temática específica, mas a conotação política de boa parte dos trabalhos era latente. Em alguns casos, escancarada e, coincidentemente, baseadas em material publicado pelo Jornal do Brasil.

Um deles é a mostra de Evandro Teixeira, que incluía imagens da cobertura fotojornalística de passeatas e outras manifestações contra a repressão.

A outra trazia a produção do artista plástico Antonio Manuel, feita a partir de imagens recortadas de jornal ou serigrafias sobre o flan – papel-cartão com imagens e textos em alto e baixo relevos, indispensável, na época, para a impressão das publicações diárias.

As peças mostram o noticiário sobre fundo vermelho, remetendo à violência, ao sangue dos mortos, feridos e torturados pela ditadura. O MAM vai mostrar sete desses painéis, cobertos com um pano preto, que o espectador precisa levantar para ver as imagens.

– Minha intenção era fazer a leitura sobre a transformação do que estava sendo vivido em algo gráfico, transcrito – conta Antonio Manuel.

– As notícias eram um complemento da parte estética, diagramação de jornal sempre me interessou muito, no JB tinha acesso àquela coisa neoconcreta que era a paginação criada por Amílcar de Castro.

O artista plástico costumava ir à redação, ainda na Avenida Rio Branco, colher material para os painéis. Pegava os flans antes que fossem descartados pela gráfica. Jogava talco nas placas de cartão para que as imagens ficassem marcadas nos relevos e ele pudesse escolher as páginas pelo conteúdo; depois fazia suas intervenções.

– Meu trabalho evoluiu, mas esse uso do jornal ainda é marcante na minha pintura, a diagramação com as linhas, os cinzas, os espaços. Tudo isso ainda está forte na minha memória visual – observa o artista.

Outras obras de Antonio Manuel da mesma época integram paralelamente a mostra Arte Brasileira 1963-1978, que também abre amanhã. Nascido em Portugal, o pintor está no Brasil desde 1953.

Depois da “visita” dos militares ao museu, recebeu um aviso de Niomar Muniz Sodré, fundadora do MAM e proprietária do lendário Correio da Manhã, de que precisava se esconder. Evandro também foi aconselhado a sumir temporariamente. Suas imagens da época já ganharam o país, mas é a primeira vez que serão reproduzidas com a mesma configuração que tinham na exposição que não abriu.

– Na época, a imprensa publicou que a mostra fora cancelada por questões técnicas. Mas o fato teve repercussão no mundo inteiro – lembra Teixeira.

– Tinha todo esse material arquivado, agora ele finalmente vai ser visto da maneira que o MAM quis mostrar.

Durante os anos 60, o auditório da cinemateca conservou, logo abaixo da tela de exibição, a obra L.U.T.E, de Rubens Gerchman. Por isso, a censura também permeia a exposição Cinemateca, que enfatiza a trajetória do arquivo de filmes da instituição, que guarda inúmeros títulos proibidos na época.

Formação de acervo destaca como foi constituída a coleção de arte da instituição. Construções completa o conjunto de cinco mostras. Em projeções, vai detalhar o período das obras que ergueram o complexo arquitetônico de Affonso Reidy.

São filmes e cinejornais de 1955 a 1966, exibidos simultaneamente a um conjunto de fotos com trilha sonora especialmente composta. Traz ainda uma maquete de 1953, em que se vê o teatro – só construído em 2005 para abrigar a casa de shows Vivo Rio – e o registro fotográfico desde a fundação, em 1948, do museu, que levou 20 anos para ficar integralmente pronto. A curadoria é da coordenadora do Centro de Pesquisa e Documentação do MAM, Rosana de Freitas, que antecipa outras raridades da mostra:

– Muito se fala da arquitetura, mas o período de construção traz curiosidades, como imagens dos caminhões transportando material para aterrar a área onde seria erguido o museu.

[21:06] - 27/10/2008

Disponível em : http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/10/27/e271015731.html

Karlene Braga

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