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domingo, 31 de agosto de 2008

'Criança que joga videogame tem inteligência superior'

Identificadas e motivadas pelos desafios dos jogos, crianças e adolescentes acabam desenvolvendo o pensamento lógico

Renata Cafardo

É preciso mudar a antiga idéia que se tem de educação para entender o que diz o mexicano Guillermo Orozco, mestre e doutor em Educação pela Universidade Harvard. Para ele, crianças e adolescentes que jogam muito videogame e não saem da internet têm inteligência superior. Os jogos, diz, fazem com que eles aprendam a utilizar métodos científicos. É preciso descobrir as regras, trabalhar com hipóteses e achar soluções. “O jogo é estimulante e gratificante porque o desafio é permanente”, diz.
Orozco, que é professor da Universidade de Guadalajara, afirma que o problema é que a maioria das pessoas ainda acredita que “educativo é apenas aquilo que se ensina”. “É preciso abandonar a ênfase no ensinamento e colocá-la na aprendizagem. Na internet, para buscar as coisas e clicar aqui ou ali tem de se tomar decisões. A criança aprende a pensar logicamente.”
O educador apresentará suas idéias no Brasil, no fim do mês, no 3º Congresso Ibero-Americano EducaRede: Educação, Internet e Oportunidades, promovido pela Fundação Telefônica. Ele, no entanto, acha que qualquer tecnologia - inclusive a televisão - deve ser afastada de bebês de até 2 anos. “Eles precisam viver uma etapa sem representações tecnológicas do mundo, têm de ver a vida com seus próprios olhos.” Veja a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.
Como a tecnologia pode ajudar na educação?
A tecnologia, os jogos, a internet podem ajudar de várias maneiras. Desenvolvem diferentes habilidades cognitivas, como dedução e indução, antecipação de cenários ou tomada de decisões. O jogo é um treinamento em método científico porque muitos videogames não têm todas as regras, é preciso descobri-las e, para isso, é necessário ter um hipótese e ver se ela é correta. Se não for, tem de fazer de novo até achar a regra para conseguir continuar jogando. Isso é exatamente o método hipotético dedutivo. Mas os jogadores fazem isso de maneira inconsciente, estão apenas buscando uma saída para passar à próxima fase. Aí que deve entrar a intervenção pedagógica, para permitir que o jogador possa aplicar o desenvolvimento dessas habilidades em outras situações.
Mas como o educador pode fazer isso?
Para entender essa situação é necessário antes pensar a relação das novas tecnologias com a educação de uma maneira distinta. Os educadores quando ouvem a palavra videogame pensam em tempo livre, em desperdício, em influência negativa da violência e em vício. Isso porque eles crêem que educativo é apenas aquilo que se ensina e para isso é preciso se esforçar e não se divertir. Precisamos mudar de paradigma sobre o educativo e sobre a ênfase. Abandonar a ênfase no ensinamento para colocá-la na aprendizagem.
Há limite para uso das tecnologias?
Os pais acham que os filhos ficam três ou quatro horas jogando videogame porque estão viciados. Mas o que acontece é que o jogo é muito estimulante e gratificante porque o desafio é permanente. Claro que qualquer excesso é negativo, que não podemos apenas ficar jogando videogame, mas nem sempre é um vício. Há uma grande motivação e identificação com o desafio.
E como lidar com o conteúdo muitas vezes violento dos jogos?
Há pesquisas que mostram que o menos importante de um videogame é o conteúdo, ele é apenas um pretexto para a ação. A narrativa não importa muito. Por outro lado, há sim jogos violentos. Mas há também os que se desenvolvem em cenários democráticos. Já a violência na TV é diferente porque nela o que importa é o conteúdo, o narrativo.
Há pesquisas que provam o valor educativo do videogame ou da internet?
Eu estou no meio de uma pesquisa com crianças e adolescentes em Guadalajara sobre videogames. Mas já há pesquisadores dos Estados Unidos e da Europa que dizem que o videogame permite desenvolver uma inteligência de nível mais alto. Acredito nisso também. Outras pesquisas mostraram que quem joga videogame se sai melhor em algumas disciplinas na escola, por exemplo, desenho e matemática. Os que usam muito a internet e o computador têm melhor desempenho geral na escola porque desenvolvem o hábito de pensar logicamente, de associar idéias. Para buscar as coisas e clicar aqui ou ali, tem de se tomar decisões. Se clico aqui, aonde vai me levar e, se ali não encontrei o que buscava, de que maneira posso achar o que preciso?
Mas existe idade mínima para começar a mexer em computador?
É preciso lembrar, antes de tudo, às vezes as novas tecnologias não estão dirigidas por objetivos educativos e sim pelo mercado. O que se busca são consumidores. Por isso é preciso ter cuidado. O mercado está se conectando cada vez mais com crianças muito pequenas. No Estados Unidos, inventaram telefones celulares para bebês que têm poucos botões, um diz papai, outro mamãe. E até para cachorros; o animal treinado liga para o dono quando tem fome. Eu não acredito que nenhuma tecnologia deve ser usada com bebês ou crianças muito pequenas, nem mesmo a TV. Eles precisam viver uma etapa da vida sem representações tecnológicas do mundo, têm de ver a vida com seus próprios olhos, porque no resto dela vão estar mediados por alguma tecnologia, por alguma representação visual.
O senhor defende que o videogame seja usado na sala de aula?
Pode, mas não necessariamente. Se o orientador já viu e experimentou o mesmo jogo, ele pode conversar com os estudantes sem ter o videogame na escola. As crianças sabem muito bem quais são as estratégias. É o mesmo princípio para a TV, o professor pode problematizar a novela do dia anterior sem ter o aparelho na sala.
E qual o papel dos pais?
Os pais têm de ver o videogame, saber o que é e perceber como o seu filho se relaciona com ele. E também cuidar e supervisionar o tempo que a criança passa fazendo isso. É preciso diversificar a atividade das crianças, não se pode ficar quatro ou cinco horas em um videogame independentemente de não ser algo negativo.
O site de relacionamentos Orkut também tem algum caráter educativo?
Conheço pouco o site aqui no México, mas vejo algo mais positivo que negativo. É a mesma idéia dos blogs, que permitem uma socialização da intimidade e até ajuda de maneira terapêutica. Mas temos de advertir as crianças sobre os perigos, de que não se deve dar informações muito pessoais para qualquer um. No entanto, um professor pode abrir um blog com um tema e pedir aos alunos para opinar nele, assim se aproveita a tecnologia. Se isso emociona tanto os jovens não se pode perder a oportunidade de usá-lo na educação.
Data da publicação: O Estado de São Paulo, Segunda-feira, 22 maio de 2006.
(Erinaldo Alves)

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