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Sobre o cinema africano....

Cena do filme Quartier Mozart, dirigido por Jean-Pierre Bekolo - Camarões - 1992 - 80 min - Cor.


Em um período de 30 anos (1963 ­ 1993), mais de 400 filmes longas-metragens foram feitos por cineastas africanos em toda a África.
O advento do cinema subsaariano coincidiu com a independência de muitas nações africanas depois de anos de subordinação colonial.
Os cineastas africanos têm um grande comprometimento com as questões da cultura africana e das identidades nacionais.
Por mais de três décadas, filmes têm sido produzidos na África com voz, conteúdo e opção estética muito ricos, sempre com sentido histórico, e criativamente comprometidos com a realidade social do continente.
Os filmes incorporam tradições orais e costumes locais de comunicação, e, quando conseguem atingir seu público, são imensamente populares.
O cinema africano é tão diversificado atualmente que é difícil estabelecer delimitações, ou classificações, que envolvam a temática ou as questões estilísticas.
Filmes do mundo árabe tendem a se concentrar no problema da Palestina ou na questão do fundamentalismo islâmico.
Filmes do restante da África se concentram em temas como modernidade versus tradição.
A Mostra de Arte Africana Contemporânea apresentou para o público brasileiro uma antologia de curtas-metragens de seis países africanos organizada pela South African Broadcasting Corporation, FRU e Primedia Pictures: Africa Dreaming.
Composta dos filmes The Homecoming, Mamlambo, The Gaze of the Stars, The Last Picture, Sabriya e So Be It, esta antologia é uma tentativa dos produtores e cineastas africanos de divulgar sua produção além das fronteiras do continente africano.
Ao lado destes seis curtas-metragens, a Mostra trouxe também um longa-metragem de Jean-Pierre Bekolo, cineasta da República dos Camarões: Quartier Mozart é um excelente exemplo de como o cinema africano pode surpreender na linguagem e no conteúdo.


QUARTIER MOZART

Direção de Jean-Pierre Bekolo - Camarões - 1992 - 80 min - Cor.

Feito com o baixo orçamento de U$30,000 em Iaundé, Camarões, Quartier Mozart traz uma exuberância estilística nunca antes vista no cinema africano.

Montagens, telas vazias, efeitos sonoros intrigantes e música popular.

Este filme é um típico filme "Hip-Hop", criado com um pastiche de imagens e história amarradas para máximo efeito nos jovens urbanos que constituem a maior parte das audiências por toda a África do Oeste.
Se o gosto de tais audiências é tão cosmopolita a ponto de desejar subserviência cultural, o filme oferece uma denúncia inteligente de tais processos, com humor e impudência crítica.
Ele articula questões do pós-colonialismo e contradições culturais que desarmam possibilidades de subjetividade por aqueles duplamente marginalizados, tanto por seus governos neocoloniais como pelo capitalismo global.
O filme narra a história de como o espaço geográfico e cultural definido pela pobreza econômica produz violência cultural na forma de chauvinismo.
Duas mulheres nos apresentam esta narrativa insistindo que a única maneira de atingir a subjetividade é magicamente transformarem-se em homens.
Mama Thekla, descrita como feiticeira, transforma uma jovem conhecida por todos como "Queen of the Hood" ("Rainha do Bairro") em um garanhão chamado "My Guy" ("Meu Homem") e ela própria em um homem chamado "Panka".
As façanhas sexuais de "My Guy" assumem dimensões folclóricas, assim como a capacidade de "Panka" de apagar a masculinidade.
As aventuras da Rainha do Bairro e seus encontros com os machões fazem-na concluir que tais subculturas precisam não apenas ser domadas como transcendidas para que se tenha qualquer progresso significativo.
Como um comentário cultural, o filme descreve o processo de socialização disponível para aqueles condenados à pobreza e à intensa vigilância da autoridade neocolonial.
O estado de pobreza do cenário do filme gera um "processo de desejo", marcado por fantasias a respeito da França e dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que essas pessoas praticam intensa violência uns contra os outros.
Deve-se prestar atenção à linguagem crítica de autodefinição empregada pelo filme.
Se o que resta nos guetos da África são comunidades como a de Quartier Mozart, como podem elas transformar-se efetivamente quando violam e exploram a si próprias sexual e economicamente?
Como são articuladas as questões da identidade em seus contextos locais, nacionais e globais?
Fundamentalmente, o que determina os processos e contradições do ser, do vir a ser e do pertencer àquele país e ao mundo como um todo?
Deve-se atentar para a caracterização e a cadência narrativa do filme.
Seu estilo desafia a intolerância estilística.
Também oferece ao espectador uma representação de identidades consignadas às condições do não-ser ou de aproximações de alteridade à "subjetividade euro-americana" apresentadas pelos filmes de Hollywood.

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