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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Decadência e abandono do Engenho Corredor de Zé Lins - provocações de uma “expedição pedagógica"




Outras dependências do engenho (local do processamento do açúcar e os armazéns). Fotos de Erinaldo Alves.







Fotos da fachada principal e do interior da Casa Grande do Engenho Corredor - Pilar/PB. Fotos: Erinaldo Alves

Tive o privilégio de ler, ainda adolescente, os romances de José Lins do Rêgo. As páginas envolventes de “Menino de Engenho”, “Doidinho” e “Fogo Morto” povoaram minha imaginação com imagens da cidade de Pilar e do Engenho Corredor, também conhecido como “Santa Rosa”. No dia 30 de Maio de 2008, tive a oportunidade de confrontar as imagens idealizadas pela minha mente com as “reais” obtidas a partir de observações do local. A oportunidade surgiu com uma viagem – denominada “expedição fotográfica à cidade de Pilar/PB” – realizada com o propósito de registrar em imagens alguns cenários relacionados ao universo geográfico e cultural da obra de José Lins do Rego.
Trata-se de uma programação alusiva à comemoração, em 2008, do ano cultural José Lins do Rego, promovida pela Secretaria de Educação do Município de João Pessoa. A expedição, deste dia, envolveu o professorado de Artes e Educação Física. Na mesma semana, outras turmas de docentes das áreas de História, Geografia, Ensino Religioso, Português e do Fundamental I realizaram o mesmo roteiro. Tais disciplinas foram envolvidas para se articularem em torno de um projeto interdisciplinar. Considero tal iniciativa muito importante porque ajuda a familiarizar o professorado e o alunado com as principais personalidades da arte e da cultura paraibana. A minha participação foi possível porque integro a equipe de ministrantes da formação continuada da área de Artes Visuais, o que revela uma importante articulação entre o Ensino Superior e a Educação Básica, entre a UFPB e a Prefeitura Municipal de João Pessoa.
A viagem permitiu-nos, além de uma aproximação maior com o professorado de artes da rede municipal, conhecer a histórica cidade de Pilar, fundada em 1885, e nos surpreender com o abandono ao qual está submetido o famoso Engenho Corredor, local onde José Lins do Rego nasceu e viveu sua infância. Pude realizar algumas fotos, cujas imagens e impressões impulsionaram-me a escrever como uma forma de protesto.
O imponente, glorioso e instigante engenho dos relatos de José Lins está ameaçado de desabamento, transformado em escombros, em abrigo de maribondos e morcegos, cheio de pichações no seu interior. Em vez de reforçar o prazer, provocado pela memória dos textos de José Lins, tive receio e medo ao adentrar no Engenho na situação atual em que se encontra. A Casa Grande do engenho e as demais habitações e armazéns parecem um cemitério abandonado.
Esta situação não pode continuar.
Vivemos um momento no qual o Governo Federal, via o Ministério da Cultura, incentiva a criação de museus e bibliotecas. Há várias linhas de financiamentos, as quais podem ser facilmente localizadas no site oficial do referido Ministério. É preciso impedir que o conjunto arquitetônico, tombado por meio do Decreto Estadual nº. 20.137, de 02 de dezembro de 2008, desmorone.
O Ministério Público Federal formalizou, em 2007, uma ação ajuizada com o objetivo de garantir a recuperação e a preservação do patrimônio histórico do Engenho Corredor, tendo como réus os proprietários, que especulam com a destruição do patrimônio cultural, o Governo do Estado e o IPHAEP, omissos ao assistirem passivamente à destruição.
O Engenho Corredor é um importante exemplo do que fazemos com a nossa memória e o nosso patrimônio cultural: deixamos que vá ruindo até desaparecer, quer seja por uma restrita visão comercial ou por uma simples omissão governamental.
A Paraíba está fazendo com a memória de José Lins, o contrário do que faz a cidade de Granada, no sul da Espanha, com a memória do poeta Frederico Garcia Lorca. Em Granada, tive o privilégio de visitar, por exemplo, a casa da família Lorca, onde viveu o poeta de 1926 até o início da Guerra Civil espanhola, em 1936, quando foi assassinado por nacionalistas, acusado de subversão, por nutrir visões socialistas e por se assumir como homossexual. A casa de Lorca está preservada, com o mobiliário da época. Integra um importante roteiro turístico e cultural, ao lado do imponente conjunto arquitetônico conhecido como “Alhambra”, castelo construído pelos islâmicos, além das das tradicionais casas decoradas com pratos de cerâmica e plantas que tão bem caracterizam a bela cidade espanhola de Granada.
O Governo do Estado quer fortalecer o turismo para criar empregos na Paraíba. Isso só é possível enaltecendo o que a Paraíba tem de singular e de importante do ponto de vista social e cultural. A obra de José Lins do Rego é conhecida nacional e internacionalmente. Pilar e o Engenho Corredor são testemunhos arquitetônicos, sociais e culturais da história cultural do Brasil e da Paraíba. As ruínas do Engenho Corredor clamam por ação e articulação política. Outros leitores dos romances de Zé Lins têm o direito de confrontar a visão idealizada de Pilar e do Engenho Corredor com imagens concretas de um belíssimo conjunto arquitetônico. Escrevo para fazer ecoar o meu grito para que a cidadania cultural, relacionada com o universo literário de Zé Lins, não possa ser obstruída. Viva a memória do Engenho Corredor!
Erinaldo Alves

4 Comentários:

adriana disse...

Obrigada por ter publicado essa fotos, fiquei muito curiosa de saber o que se escondia por dentro dessa casa em ruínas do nosso José Lins do Rego.Tive medo de encarar o mato que cobria todo o lugar.Mas, quero parabenizá-lo
pela sua coragem e pelas imagens.
Adriana Pessôa

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Charlys Ciclísta !! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Charlys Rocha disse...

Agora fiquei com vontade de conhecer !!

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