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Código de Faixa: intervençoes artística no trânsito



Uma divertida alteração na faixa de pedestres, em uma rua de Porto Alegre (RS), estimula polêmica e reflexões. Para José Francisco Alves, a ação que transformou o sinal de trânsito está inserida em uma sofisticada linguagem de inserções artístico-políticas.

O mês de maio trouxe um inusitado acontecimento no conturbado espaço urbano porto-alegrense: uma divertida alteração na faixa de pedestres da rua dos Andradas, esquina com Senhor do Passos. Naquele sinal de trânsito, foram pintadas delgadas faixas brancas, por entre as já existentes, e inseridos alguns números com estêncil; dessa forma, transformou-se a faixa numa das imagens mais presentes da atualidade, o código de barras. A ocorrência chamou a atenção de muitos transeuntes e logo se tornou uma sensação, chegando aos ouvidos da "comunidade artística". Como conseqüência, virou notícia de repercussão nacional. Instaurada a polêmica, pelas autoridades de trânsito prevaleceu o pragmatismo, sendo a ação classificada como "vandalismo" e assim removida. Sob a perspectiva dos cidadãos mais atentos, acostumados ou não com tal ocorrência, a suspeita de que a pintura era "coisa de artista" surgiu com naturalidade. Na comunidade artística, as dúvidas resumiram-se a questões de autoria da pintura, pacificamente percebida como obra de arte, ainda mais pelo fato de ocorrer ao lado do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Se pairam dúvidas de que a ação pertence ou não ao universo da arte, podemos antecipar: se trata de um trabalho de arte. Primeiramente, cabe inseri-lo num novo contexto local, de dez para cá, que propicia uma aceitação mais ampla e um maior reconhecimento da arte contemporânea, sendo proporcionado pela Bienal do Mercosul. Em especial, esse evento vem produzindo uma paulatina familiaridade com "intervenções urbanas" temporárias e esculturas públicas permanentes, pelo fato de que em todas as edições, até o momento, foram exibidas obras fora dos espaços expositivos, com o objetivo de repotencializar o contexto urbano, atuação esta quase um sinônimo dessa Bienal em particular.

A 5ª Bienal do Mercosul apresentou algumas intervenções num sentido muito próximo ao ocorrido nessa faixa de pedestres: "Collecting Fragments II", frases pintadas no chão, junto a paradas de ônibus, de Mário Sagradini, e "Rosetta", uma placa com o formato do sinal "Pare" e com a reprodução da "Pedra de Roseta", executada por Rulfo, ambos artistas uruguaios. A genealogia mais recente destas obras, hoje institucionalizadas, remonta à Street Art (para nós, arte de rua), que do final da década de 1960 até os anos 80 caracterizou-se como uma forma de comunicação de massa de baixa tecnologia - ironicamente num mundo determinado pela alta tecnologia - sob expressões como os murais, pôsteres e graffiti. A Street Art, pelo contexto de onde ocorreu em larga escala (nas comunidades negras e hispânicas dos EUA; no Brasil e na Argentina sob autoritarismo e depois na reabertura política; na luta separatista em regiões espanholas, etc.), assumiu um sentido fortemente politizado.

Quando a polêmica dessa intervenção na faixa parecia amenizada, a discussão atingiu outro estágio: a divulgação no portal da internet YouTube do vídeo "Código de Faixa", documentando a realização do trabalho. Foi essa veiculação que consolidou definitivamente o caráter público dessa intervenção, então já não mais existente. Some-se a isso o fato de que a obra foi feita inicialmente para o contexto urbano, para ser percebida naquela esfera. "Código de Faixa" tornou-se também um subsídio importante para fornecer pistas das intenções dos autores, e talvez sua mais importante revelação seja de que a ação objetivou realmente transitar pelo universo artístico.

Dentro desta perspectiva do trabalho e o atrito que ele causa, devido à noção de autoria, considerando sua circulação dentro da esfera popular, seu caráter subversivo e sua dimensão discursiva (guardadas as devidas proporções em relação ao mérito) se conecta também a uma sofisticada linhagem artística que tem um de seus grandes momentos na série "Inserção em Circuitos Ideológicos", de Cildo Meireles. Produzidas entre 1970-75, essas inserções tinham um forte caráter político, enorme circulação pública e, principalmente, trabalhavam com elementos de forte penetração popular, como garrafas de Coca-Cola e notas de dinheiro. Ao mesmo tempo, no caso de Cildo, eles eram produzidos anonimamente e posteriormente migraram do terreno da intervenção popular para o universo da arte.

Se por um lado essa intervenção na faixa é característica da arte de rua, como manifestação marginalizada, de expressão coletiva, em virtude do contexto pela qual circulou e adquiriu um status diferenciado, não se tratou, como nas décadas de 1960-80, de manifestação política. Percebemos, todavia, o seu caráter subversivo, a desafiar as normas que regem o cotidiano. A imagem de um código de barras, fortemente presente no dia-a-dia e cuja forma se incorporou perfeitamente a essa faixa de pedestres, produziu uma contaminação num mecanismo destinado a normatizar a circulação dos indivíduos. Desse modo, a intervenção refere-se criticamente a uma sociedade automatizada, na qual desde produtos até pessoas (cartões, documentos, etc.) recebem essa marca.

Numa Porto Alegre caótica do vandalismo, pichações e roubo de obras de arte ao ar livre, sem precedentes na história do País, e não entrando no mérito da ação corretiva legal, destaca-se, porém, a premência da administração em apagar essa intervenção, a qual as autoridades ficaram sabendo não pela sua ação fiscalizadora, mas pela imprensa, que repercutiu a simpática recepção pública da obra. Mas os desdobramentos do episódio ainda se seguirão. Para quem assistiu atentamente a "Código de Faixa", a voz feminina que predomina a ação conclui: "Esse é só o primeiro".

José Francisco Alves, doutorando em artes visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Autor de livros e artigos sobre arte pública no Brasil e exterior.

Texto publicado originalmente no ZH Cultura, em 2 de junho de 2007.

Fonte: http://www.netprocesso.art.br/oktiva.net/1321/nota/50513

Comentários

Fabiane disse…
Muito legal e muito inteligente. A la Cildo Meireles mesmo. Muito legal este blog. Estou indicando para meus amigos.
Anônimo disse…
Oi, Fabiana,

que bom que tenha gostado!!! Obrigado pela divulgaçao. Ela é importante porque temos poucos espaços para pesquisar sobre o ensino das artes visuais na net. Estamos abertos a sugestoes e as postagens podem atender âs necessidades também dos usuários do blog. Atualmente, atendem às necessidades dos meus alunos, que sao formandos ou egressos da Licenciaturas em Educaçao Artística ou de Artes Visuais. Só uma curiosidade: de onde você é? É professora de Artes?

Abraços,

Erinaldo Alves
Fabiane disse…
Oi. Sou de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Sou formanda em Artes Visuais pela UFPel e trabalho com vídeo-instalações e fotografia. Minha poética tem a ver com o tempo.
O endereço do meu blog é http://www.frauenliebeundleben.blogspot.com/
mas lá escrevo sobre tudo.
Também estou concluindo o curso de Música, na modalidade Canto e trabalho com pesquisa em Música.
Mas seu blog é mesmo bem legal e por isso indiquei aos meus amigos artistas. É bom saber o que se está fazendo e pensando nos demais cantos (porque aqui é canto mesmo!) desse Brasilzão.
Abraços
Anônimo disse…
Que legal, Fabiana!!!
Bom saber que você é da área!!!
Conheço duas professoras muito especiais da UFPEL: Ursula e Mari Lúcie.
Bom, se desejar, poderemos publicar algo do seu trabalho com vídeo-instalações e fotografia...

Abraços,

Erinaldo
Fabiane disse…
Fui aluna das duas. Muita filosofia na veia...
Obrigada. Uma hora dessas, envio algum material para avaliares. hehe
Abraços, FAbi
Anônimo disse…
Fico aguardando....

Abraços, Erinaldo.

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