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4.1 Design e movimento

O gênero pode ser implicitamente construído em brinquedos que representam seres humanos simplesmente pelo modo como os bonecos podem ser movidos. Podem ou não ser desenhadas de modo cinético, isto é, tendo partes que se movem ou que podem ser movidas. A representação da ação difere consideravelmente de um brinquedo para outro. Alguns brinquedos são desenhados para a ação, outros, para assumir poses.

Isto é muito importante em termos de representação de gênero. Os bonecos para meninos são visivelmente diferenciados das bonecas para meninas. Action Man, por exemplo, fica de pé sozinho, sem cair; consegue segurar objetos; sua cabeça se move para os lados; suas pernas podem se abrir. Seu corpo musculoso e suas mãos poderosas são seus principais traços distintivos. Por outro lado, as bonecas para meninas, como a Barbie, não ficam em pé sozinhas; não podem segurar nada nas mãos; suas pernas não se abrem; e sua cabeça se move em todas as direções. Tanto o movimento de cabeça (especialmente de um lado para o outro e para cima e para baixo), quanto à possibilidade de dobrar os joelhos, fazem com que a boneca de menina possa ser colocada em ‘posições submissas’ – com a cabeça levemente inclinada, por exemplo. Action Man, ao contrário, pode manter o queixo erguido, numa postura orgulhosa! Sua cabeça só se move para os lados.

Tais diferenças dificilmente pedem maior elaboração. Elas capturam os mais básicos e essenciais elementos da linguagem corporal relacionada ao gênero, pois permeiam a cultura popular ocidental. Os potenciais de ação destes bonecos e bonecas são para a linguagem da ação o que desenhos feitos apenas de linhas são para a linguagem da comunicação visual: a representação reduzida ao essencial, o esboço básico, como, por exemplo, um desenho de uma face que consiste em uma linha redonda com dois pontos para os olhos e uma linha semicircular para a boca. Esta é uma das lições chave dos brinquedos desenhados de modo cinético: o movimento é ‘programado’, o ‘social’ torna-se ‘genético’. As ilustrações encontradas nas lojas e nas caixas dos brinquedos carregam a mesma mensagem em termos de movimento.

Barbies (o retrato de mulher em sua juventude com um rosto bastante atraente) ficam em pé como que incapazes de se moverem [fig. 2]. Na verdade, as Barbies precisam de um suporte para ficar de pé. Nos catálogos e nas caixas, as Barbies ficam estáticas, colocadas em lugares relacionados à vida doméstica (a casa, o jardim, a loja), enquanto o Action Man é, geralmente, colocado em ambientes ao ar livre – perto da natureza selvagem, pronto para a ação.


Figura 2 - Fotos tiradas do catálogo da Barbie.

O Action Man, ao contrário, parece estar sempre em movimento e é colocado em contextos específicos ao ar livre, que envolvem perigo e movimento [fig. 3].

Assim como acontece com o design cinético, a representação visual dos brinquedos situa meninos e meninas em diferentes esferas e transmite significados relacionados ao gênero.

Usando a teoria sistêmica de Halliday para analisar a comunicação visual, Kress e Van Leeuwen (1996) afirmam que representações visuais têm a ‘modalidade’ realizada de maneiras diferentes no meio visual. Para eles, uma das questões cruciais é a da confiabilidade da mensagem. Será que o que vemos ou ouvimos é verdade (factual, real) ou uma ficção, algo fora da realidade? A modalidade em imagens, portanto, refere-se

ao valor de verdade ou credibilidade de afirmações a respeito do mundo. Imagens visuais podem representar o mundo como se fosse real, de modo naturalístico (realis), ou como fantástico, imaginário (irrealis). A realidade naturalística é definida com base na correspondência que possa haver entre as representações visuais de um objeto e aquilo que normalmente vemos daquele objeto a olho nu. (KRESS e VAN LEEUWEN, 1996, p. 160)

Damos mais credibilidade a alguns tipos de mensagem do que a outras. Dizem que fotografias não mentem. No entanto, fotógrafos editam a realidade através de seu próprio ponto de vista e desta forma podem também ‘alterar’ o que achamos ser o ‘real’. Os autores afirmam que uma teoria semiótica social não pode estabelecer a verdade ou a inverdade absoluta das representações. Este tipo de teoria só é capaz de mostrar se uma dada proposição é representada como verdadeira ou não. A modalidade, neste sentido, é essencial em relatos de representações multi-modais como brinquedos, já que podem representar pessoas, lugares e coisas como se elas fossem reais ou fantásticas, caricaturas ou cópias perfeitas do ‘real’.


Figura 3 - Fotos tiradas do catálogo do Action Man.

Os autores ainda sugerem que uma das maneiras como a realidade é modulada na comunicação visual é através da cor, do foco e da profundidade (perspectiva), que podem ser idealizados em um grau maior ou menor. A cor desempenha um papel em todas as orientações de código. Podemos ter cor abstrata (e.g., o rosado uniforme para os rostos, ou o esverdeado, para a grama); podemos ter cor naturalística, ou ainda podemos ter cor sensorial – a cor se torna sensorial à medida que ‘excede’ o naturalismo. A cor também é fonte de prazer e produz (ou não) significados afetivos. Todos nós reconhecemos o valor emotivo e sensual das cores. Através de tons diferentes, o princípio do prazer é encenado. Reagimos positivamente às cores que nos atraem. E as cores em geral estão carregadas de significação social.

Autores: Carmen Rosa Caldas-Coulthard e Theo van Leeuwen
Fonte: http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0403/01.htm

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