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Cultura que transforma



Autor: Renato Janine
Publicado em http://www.democratizacaocultural.com.br/Conhecimento/Artigos/Paginas/070712_cultura_transforma.aspx

Há muitas definições de cultura, mas gosto de trabalhar com uma em especial: a cultura efetua uma transformação na vida das pessoas (ponto 1) no sentido de ampliar seu leque de escolhas e, assim, de aumentar sua liberdade (ponto 2). Isso significa que não há uma substância chamada “cultura” e portanto o que é cultura para uma pessoa, pode não o ser para outra. O importante, então, é que também não há uma acumulação de cultura, pela qual alguém se torna dono dela, ou seja, possui “mais” cultura do que outro indivíduo.

Mais ainda, e paradoxalmente, uma pessoa “culta” talvez tenha menos chances de viver a cultura do que uma pessoa inculta. Para quem freqüenta museus, cinemas, teatros, o grau de novidade de uma obra cultural, a mudança que ela lhe proporciona, pode estar perto de um grau zero. É como se estivesse esgotando sua capacidade de ampliar enfoques – enquanto uma pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que numa política cultural é importante visar os primeiros, os “cultos”, entre os quais eu incluiria boa parte dos criadores e dos freqüentadores da cultura mais influentes na alocação de recursos. Mas o realmente crucial é privilegiar aqueles – as massas, hoi polloi, como diriam os gregos antigos e os ingleses atuais – que até agora tiveram pouco acesso às obras e podem extrair mais delas.

Esta definição de cultura pelo “efeito” que ela tem na vida das pessoas enfatiza seu caráter fortemente libertador, ao mesmo tempo em que reduz a importância de uma hierarquia das obras “em si”. Na verdade, as obras valem pelo que produzem ou propiciam a seus usuários. Por isso, o cultural desempenha um papel relevante na vida social. Há um caso em particular que sempre me chama a atenção. Na Irlanda do Sul, fortemente católica, quando se deu a independência do Reino Unido, eliminou-se da vida pública qualquer referência ao homossexualismo. Disso resultou que rapazes que não gostavam de moças só podiam imaginar que tinham uma vocação sacerdotal. Disso, por sua vez, decorreu que, passado algum tempo, eles abusassem sexualmente dos meninos a quem supostamente educavam. Esse é um exemplo terrível de como as limitações culturais escravizam e infelicitam as pessoas – e, inversamente, de como uma abertura para o horizonte, a possibilidade de viajar imaginariamente para experiências que estão geograficamente longe de nós, nos emancipa.

O acesso à cultura, assim, não consiste apenas em mais pessoas visitarem museus ou assistirem a peças ou filmes. Ele significa mais pessoas terem uma experiência intensa de ampliação de perspectivas pelo contato com o que é diferente. Dançar, para um pé de pau; ver um quadro, para quem nunca apreciou o jogo das cores; ler, para quem jamais desfrutou um livro, podem ser revolucionários. A questão não é quantitativa, meramente numérica. É de um valor que se agrega, sim, mas que consiste em qualidade. E essa qualidade se resume numa palavra: maior liberdade. A cultura liberta; traz mais opções a quem a vivencia.

Por isso a cultura tem um papel-chave na vida democrática. Sem ela, o que será a democracia: apenas eleições políticas? Escolher os governantes, aprovar as leis são parte muito pequena do que é a vida democrática. Se a democracia é liberdade, quer dizer que ilumina a vida íntima, pessoal, afetiva. A cultura abre a porta de imaginários que, por sua vez, constroem novas vidas. O menino confinado entre vacas e cavalos que se descobre homossexual, o favelado que percebe seu dom para a música, estão abrindo novos rumos para si mesmos.

Aqui entram outras eleições – no sentido exato que a palavra tem e que quer dizer, simplesmente, “escolhas”. Podemos escolher melhor, se formos cultos. Mas a palavra “cultos” está tão gasta que parece significar quem tem um cabedal, um estoque de informações. Não é isso. Cultura é poder de transformar. A criança que, assistindo à Flauta mágica no filme de Ingmar Bergmann, vai-se deslumbrando a cada episódio novo tem uma vivência cultural mais rica do que o melômano que sabe distinguir cada soprano que aparece e seus matizes.

Evidentemente há um espaço que é dos criadores e dos críticos. Mas não é no território deles que se dá o acesso à cultura, sua democratização, seu papel emancipador. É claro que toda organização da cultura, desde as secretarias de Estado até os patrocinadores privados, deve apoiar a criação, a novidade, a preservação. Mas estas são condições para algo que é o cerne do cultural, e que está na recepção. Uma recepção, por sinal, que não é passiva, mas se constitui numa apropriação da obra. Até os erros (como quando a personagem vivida por Melina Mercouri, em Nunca aos domingos, acha que as tragédias gregas acabam... bem) fazem parte dessa riqueza receptiva, pela qual o espectador também se torna um tanto criador.

Algumas obras notáveis se fizeram sobre esse encontro da arte com o principiante. Um filme cubano dos anos 60 mostra a primeira vez que se mostra uma película para uma aldeia que nunca viu uma antes. Godard, em Tempos de guerra, tem uma cena com um rapaz que vai olhar o que está acontecendo (acha ele!) atrás da tela. Cinema Paradiso toca no mesmo tema. Essas ingenuidades são, às vezes, engenhosidades. Elas podem contribuir com algo novo. O olhar culto pode estar viciado; precisamos, constantemente, do confronto com percepções diferentes.

Como promover então a democratização cultural? Não é apenas levando mais gente a atividades culturais. É assegurando que essas experiências ampliem seus horizontes. É descobrindo novas vocações, que podem até se converter em profissão ou se manter como hobbies, pouco importa – mas que agreguem sentido às vidas. Porque nosso tempo não suporta a monotonia e ao mesmo tempo a reproduz sem cessar. Ora, uma das poucas maneiras de sairmos da monotonia que não seja histérica (o desespero por ser célebre, o homem ou mulher que é serial lover, o consumismo sem freios, o workaholism desbragado) é pelo amor ao que se faz.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros livros, de Ao leitor sem medo (Ed. UFMG), A sociedade contra o social (Companhia das Letras), O afeto autoritário (Ateliê) e A ética na política (Lazuli).

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