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Aprendendo com a Escola da Ponte a ver e agir na educação de uma outra maneira

Alunos estudando na Escola da Ponte - Portugal

Fonte da imagem: pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte

ESCOLA DA PONTE: síntese construída a partir dos depoimentos de José Pacheco.
Sistematização Prof. Erinaldo Alves
Histórico

O projeto brotou de uma inquietação: por que a escola ainda reproduzia um modelo criado há 200 anos?

Meta:

Concretizar uma efetiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garanta as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos, promover a autonomia e a solidariedade, operar transformações nas estruturas de comunicação e intensificar a colaboração entre instituições e agentes educativos locais.

Valores:

Liberdade, responsabilidade e solidariedade.

Principais questionamentos:

1) Questiona a escola como um arquipélago de solidões. Professores isolados física e psicologicamente, em espaços e tempos justapostos. Entregues a si próprios, encerrados no refúgio da sua sala, a sós com os seus alunos, o seu método, os seus manuais, a sua falsa competência multidisciplinar, em horários diferentes dos de outros professores, O trabalho escolar exclusivamente centrado no professor, informado por manuais iguais para todos, repetição de lições, passividade.
2) Desconhecimento da experiência sociocultural do alunado.

Procedimentos Metodológicos

Após uma primeira fase - chamada de "iniciação" - as crianças convivem e aprendem nos mesmos espaços, sem consideração pela faixa etária, mas apenas pela vontade de estar no mesmo grupo. O critério de formação dos grupos é o afetivo e, como o afeto não tem idade, crianças e jovens, de várias idades podem se juntar. Tal atitude está embasada em Agostinho da Silva, que costumava dizer: "os grupos devem constituir-se à vontade dos alunos, para que haja coesão e entusiasmo pelo trabalho, alegria criadora de quem se sente a construir um universo".
Os alunos decidem o que estudar, montam grupos de interesse e trabalham orientados por professores. Há também os estudos individuais, depois compartilhados com os colegas. Os estudantes podem recorrer a qualquer professor para solicitar suas respostas. Se eles não conseguem responder, os encaminham a um especialista.
Os professores estão lá, atentos e disponíveis. Cada criança é vista como um ser único e irrepetível. Logo, consideram equivocado imaginar a coincidência de níveis de desenvolvimento. Não pautam o ritmo dos alunos pelo ritmo de um manual ou pela homogeneização operada pelos planos de aula destinados a um hipotético aluno médio. Avançam com uma outra organização da escola, uma outra relação entre os vários grupos que constituem a equipe educativa (pais, professores, alunos, pessoal auxiliar), um outro modo de refletir as práticas. Passam de objetivos de instrução a objetivos mais amplos de educação.
Sugerem um modelo de escola que já não é a mera soma de atividades, de tempos letivos, de professores e alunos justapostos. É uma formação social em que convergem processos de mudança desejada e refletida, um lugar onde conscientemente se transgride, para libertar a escola de atavismos, para a repensar.
Não é um projeto de um professor, mas de uma escola. Entendem que só é possível falar de projeto quando todos os envolvidos forem efetivamente participantes, quando todos se conhecerem entre si e se reconhecerem em objetivos comuns.Consideram que é o sujeito que se constrói na atribuição de significado ao conhecimento coletivamente produzido. Os professores acrescentaram às tradicionais dificuldades de aprendizagem dos alunos o reconhecimento das suas próprias dificuldades de ensino. E procuram concretizar um ensino diferenciado no qual um mesmo currículo para todos os alunos é desenvolvido de modo diferente por cada um. Não há um professor para cada turma, nem uma distribuição de alunos por anos de escolaridade. Essa subdivisão foi substituída, com vantagens, pelo trabalho em grupo heterogêneo de alunos. Dentro de cada grupo, a gestão dos tempos e espaços permite momentos de trabalho em pequeno grupo, de participação no coletivo, de "ensino mútuo", momentos de trabalho individual... que passam sempre por atividades de pesquisa
As dúvidas são resolvidas no encontro com um professor – chamada pelo alunado de "aula direta" - num encontro de pequeno grupo, quando os alunos o solicitam. Remetem para plano secundário a função transmissora. Os professores só poderão dar respostas se os alunos lhes dirigirem perguntas. Só participam do encontro quem o deseja e o explicita. Entendem que a função de instruir é subsidiária, caracteriza a proto-história de uma escola aprendente. Citam Herbert Read: "a Educação, no sentido mais amplo, como crescimento guiado, pode assegurar que a vida seja vivida em toda a sua natural espontaneidade criadora e em toda a plenitude sensorial, emocional e intelectual."
Sem deixar de "dar o programa", pretendem ir além do aprender a ler, escrever e contar, porque educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, é ajudar as crianças a entenderem o mundo e a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo de escolarização.
Os alunos gerem, quase em total autonomia, os tempos e os espaços educativos. Escolhem o que querem estudar e com quem. Como não há manuais iguais para todos, a biblioteca e as novas tecnologias de informação e comunicação são locus de encontro, de procura e de troca de informação. Recorre-se, por vezes, às bibliotecas da autarquia, de familiares, de vizinhos, ou de associações locais. E, como é evidente, os professores são também uma fonte permanente de informação, segurança, interrogações, afetos... Mais importante que os lugares e as fontes é a compreensão das dimensões do desenvolvimento do sentido crítico (também relativamente à recolha e seleção de informação) e do fomento da partilha da informação, no sentido da comunicação e do desenvolvimento de uma cultura de cooperação.
Se acontecer desinteresse por parte de um aluno, a escola estará doente, estará doente o aluno, ou estarão ambos enfermos. Bastará determinar a etiologia, buscar remédio e verificar os efeitos do tratamento...Exemplo: A Geninha andava de mal com as amigas e com a vida. E a professora Rosa andava preocupada com aquela tristeza de muitos dias. Naquela manhã, na verificação dos trabalhos, deixou no caderno da Geninha um ponto de interrogação. Quando voltasse a passar pelo grupo, o sinal de pontuação interromper-lhe-ia a lufa-lufa [grande pressa] e recordar-lhe-ia a necessidade de meter conversa com a Geninha e de tirar aquela tristeza a limpo. Decorridos breves minutos, lá voltou. No lugar da interrogação que deixara, havia agora duas interrogações simetricamente geminadas. Um coração de linha curva a tinta azul à direita e outra linha feita de lápis à esquerda. E um ponto - que agora deveria ser final - foi um ponto de partida de palavras mansas e algumas lágrimas. A Geninha só precisava de desabafar.
Incentivam a formação de uma cadeia de solidariedade entre os alunos. Há dois espaços - "Tenho necessidade de ajuda em" e "Posso ajudar em" - em que as crianças escrevem pequenos anúncios à procura de ajuda para dificuldades em suas pesquisas. Professores e alunos aprendem em família em regime de inter-ajuda.Depoimento de uma professora recentemente integrada na equipe: "É o trabalho de equipe que nos faz superar o desgaste, que nos ajuda a ultrapassar os obstáculos. Facilitador é o fato de não estarmos sozinhos numa sala, termos uma perspectiva de toda a escola e não só daquele grupo que nós controlamos. Num projeto como este, a pessoa não tem aquela frieza, aquela solidão, a pessoa faz tudo com mais gosto, é mais ela e dá muito mais de si, claro. Sinto-me em família, completamente."Os docentes/orientadores educativos permanecem na Escola ao longo de um período temporal mais completo. A Escola disponibiliza atividades de enriquecimento do currículo, proporcionando às famílias que o desejem um acompanhamento pedagógico efetivo dos educandos até às 18 h.
Os tutores acompanham, orientam e avaliam diariamente a atividade, o trabalho realizado e o percurso de aprendizagem dos seus tutorandos. Os alunos estão fortemente implicados na gestão da própria Escola, mediante um conjunto de responsabilidades que partilham com os orientadores educativos.

Adequações arquitetônicas

Não há salas de aula, e sim lugares onde cada aluno procura pessoas, ferramentas e soluções, testa seus conhecimentos e convive com os outros. São os espaços educativos. Hoje, eles estão designados por área. Na humanística, por exemplo, estuda-se História e Geografia; no pavilhão das ciências fica o material sobre Matemática; e o central abriga a Educação Artística e a Tecnológica.
A arquitetura não mudou para acompanhar o sistema de ensino. Aliás, isso é visto como um problema. Sonham com um prédio com outro conceito de espaço. Eles têm uma maquete feita por 12 arquitetos, ex-alunos que conhecem bem a proposta da escola. Esse projeto inclui uma área que chamam de centro da descoberta, onde compartilharão o que sabem. Há também pequenos nichos hexagonais, destinados aos pequenos grupos e às tarefas individuais. Estão previstas ainda amplas avenidas e alguns cursos d’água, onde se possa mergulhar os pés para conversar, além de um lugar para cochilar. As novas tecnologias da informação devem estar espalhadas por todos os lados para ser democraticamente utilizadas pela comunidade, o que já estão conseguindo.

Concepção de inclusão:

Há 25 anos, a educação das crianças ditas com necessidades educativas especiais constituía mais um problema dentro do problema. A colocação de crianças com necessidades específicas junto dos ditos normais não era medida suficiente para se fazer o que recentemente se designa por inclusão. A inclusão não se processaria em abstrato, mas passaria por uma gestão diferente de um mesmo currículo, para que os alunos não interiorizassem incapacidades, para que não se vissem cada vez mais negativamente como alunos e depois como pessoas. Frequentemente, sob o rótulo e o estigma da diferença, priva-se a "criança diferente" (ainda que inconscientemente) de experiências que lhe permitiriam ganhar consciência de si como ser social-com-os-outros.Hoje, em cada grupo há sempre um aluno "especial". Se os professores, por qualquer motivo, em determinado momento, não podem acompanhar diretamente o trabalho de uma dessas crianças, logo um colega atento se disponibiliza para ajudar. O Marco era um menino rotulado de filho de pai incógnito. Sofria por não ter um pai como os outros meninos. O André era um menino rotulado de mongolóide. Sofria de "necessidades educativas especiais", que o isolavam dos outros meninos. Até que, um dia, mudou de escola, foi acolhido num grupo e deixou de ter rótulo. O Marco e os seus amigos já tinham descoberto o valor do trabalho cooperativo. Quando a Ana "foi para outra escola", deixou a Sandrina entregue aos cuidados da Maria do Céu. E o Marco envolvia o André num novelo de atenção que operava milagres no aprender com os outros. As crianças estavam absorvidas no quotidiano labor de aprender e de aprender a ser. O professor ia passando entre os grupos, disponível para o que fosse preciso. Deteve-se junto àquele, pois havia detectado a presença de estranhos instrumentos mediadores de aprendizagem. Não conteve a curiosidade. Pediu desculpa ao Marco pela interrupção e perguntou que papéis eram aqueles."Sabe, professor, ontem estive a ajudar o André a perceber o que era um nome. E ele parece que ficou na mesma..." — respondeu o Marco. "E então?" — insistiu o professor. "Fui p'ra casa a cismar, a cismar... E pensei em fazer umas fichas e fiz as fichas. Trouxe-as hoje e olhe que o André, agora, parece que já percebeu tudo. Não acha?" O professor não conseguiu articular a resposta. Passou a mão na cabeça do Marco. Voltou as costas ao grupo, porque a verdade é que os homens também choram. Citando, de novo, Agostinho da Silva: "Todos vamos ter que ser professores de todos e cada um dos que sabem um pouco mais ensinará os que sabem um pouco menos".
Outro espaço muito interessante são os computadores "Acho Bom" e "Acho Mal" em que os alunos expressam sua opiniões sobre as escolas. As reuniões semanais da Assembléia e os debates do fim de cada dia de escola também se alimentam das "queixas e sugestões".

Concepção de cidadania e autonomia
As crianças escreveram um documento com seus direitos e deveres. As crianças não são educadas apenas para a autonomia, mas através dela, nas margens de uma liberdade matizada pela exigência da responsabilidade. Buscam uma escola de cidadãos indispensável ao entendimento e à prática da Democracia. Procuram, no mais ínfimo pormenor da relação educativa, formar o cidadão democrático e participativo, o cidadão sensível e solidário, o cidadão fraterno e tolerante.
Assembléia
Na Ponte, cada criança age como participante solidário de um projeto de preparação para a cidadania no exercício da cidadania. Foi por isso que se constituiu, há cerca de vinte anos, a Assembléia. É por aí que passa a participação das crianças na organização interna da sua escola. Nas assembléias, o alunado “reúnem-se e discutem juntos os problemas da escola", aprendem " a respeitar regras e a respeitar-nos uns aos outros e a decidir o que é melhor para todos". Quando uma professora, em plena assembléia, perguntou à Catarina (sete anos de idade) "Quando acontece cidadania?", a pequena respondeu prontamente: "Acontece sempre". E, quando a professora insistiu, pedindo que a aluna explicitasse a resposta, esta acrescentou: "É quando eu levanto o braço para pedir a palavra ou pedir ajuda, quando me levanto e arrumo a cadeira sem fazer barulho, quando ajudo os meus colegas no grupo, quando apanho lixo do chão e o deito no caixote do lixo, quando ouço o meu colega com atenção, quando estou na Assembleia..."
Em meados de Outubro de 2000, ficou concluído mais um processo de eleição e instalação da Mesa da Assembleia de Escola. A educação na cidadania - cerne quotidiano do projeto - reassumiu a sua completa expressão: as crianças já podem dirigir propostas aos seus representantes eleitos, reunir-se em debate (todos os dias) e em assembléia (à Sexta-feira).
As crianças organizam tribunais para julgar os casos de indisciplina.
Em 1998, o tribunal foi substituído por uma "Comissão de Ajuda" (por decisão da Assembléia!) com composição e funções muito diferentes. O velho e ineficaz "castigo" foi substituído pelo "ficar a refletir" e pela ajuda de "fadas orianas" (quem já leu o livrinho da Sophya do Mello Breyner saberá ao que as crianças se referem).
Caixinha dos segredos
Como o objetivo dos objetivos é fazer das crianças pessoas felizes, foi instituída uma "caixinha dos segredos". É aí que a pesquisa das almas inquietas (indisciplinadas?) começa. Na caixa de papelão, os alunos deixam recados, cartas, pedidos de ajuda. A "caixinha dos segredos" ensina os professores a reaprender. É que nem sempre o que parece ser "indisciplina" o é. Os "recados-segredos" provam-no: "Todas as manhãs, o Arnaldo já chega cansado de duas horas de trabalho. Antes de rumar à escola, o Rui foi ao lavrador buscar o leite, levou os irmãos mais pequenos ao infantário, fez os recados da Dona Alice, arrumou a casa toda. O Carlos falta quase todas as tardes. O pai manda-o distribuir por toda a vila as folhas que dão notícia dos falecimentos da véspera, ou tem que carregar as alfaias dos funerais". O tempo amareleceu as folhas dos "recados" onde as crianças deixaram ficar pedaços de vida. Aos nove anos, o Fernando disse o que queria ser quando fosse grande, escreveu os projectos do seu futuro para sempre destruídos num estúpido acidente na mota que ele comprara com os primeiros salários de tecelão. Outros não chegaram a adultos por se deixarem envolver nas teias que a droga tece. Houve também quem abandonasse a escola e optasse pelas lições que a escola da vida oferece.
As crianças não entendem a indisciplina do gritar mais alto que o próximo, nas assembléias de adultos, porque na sua assembléia semanal erguem o braço quando pretendem intervir. Crianças de seis, sete anos, que sabem falar e calar, propor e acatar decisões. São crianças capazes de expor, com serenidade, conflitos e de, serenamente, encontrar soluções. São cidadãos de tenra idade que, no exercício de uma liberdade responsavelmente assumida, instituíram regras que fazem cumprir no seu cotidiano. A "indisciplina" é a filha dileta do autoritarismo e da permissividade. A disciplina a que me refiro é a liberdade que, conscientemente exercida, conduz à ordem; não é a ordem imposta que nega a liberdade.
Horário

-Todos os alunos cumprem o mesmo horário entre as 8:30 e as 16:00 horas e
estão sempre utilmente ocupados na Escola, enquanto decorrem as actividades
curriculares propriamente ditas, não havendo “horas mortas”, nem “furos”,
designadamente, por ausência de professores;

Concepção de alfabetização e letramento

Retomam contributos de pedagogos como Freinet. As crianças aprendem a ler naturalmente, como aprendem a falar e a escrever, e cada qual no seu próprio momento. Algumas, ao cabo de dois ou três meses, adquirem autonomia na leitura e na escrita.
Livro da quinzena
O "livro da quinzena" (sempre coerente com os projeto que estão sendo desenvolvidos por toda a escola em determinada quinzena) constitui-se em referência para a produção escrita. Há uma caixinha dos "textos inventados" - caixa dos textos que os alunos redigem quando e como desejam. Depoimento de um aluno:"Caminhos da liberdadeComo a nossa escola tenta ser um exemplo de cidadania, temos um livro da quinzena que nos fala, exactamente, desse tema. É um livro chamado "A cidadania explicada aos jovens e aos outros", escrito pelo poeta José Jorge Letria. Diz-nos que, todos os dias, fazemos coisas que têm a ver com cidadania. Que uma pessoa só é bom cidadão quando tem capacidade para se orientar pelos direitos e deveres que estão nos documentos como a Constituição da República (...) A solidariedade é uma maneira de ser bom cidadão. Nós temos solidariedade quando ajudamos a dar melhores condições às vítimas das guerras, quando ajudamos alguém a atravessar a rua (...) Com o que estamos a aprender com este livro, resta-me concluir que a cidadania é uma forma de participar na vida colectiva e de saber ter consciência para melhorar a vida dos outros." Ou, como escreveu a Francisca (de oito anos) num outro "texto inventado", "ser cidadão é, acima de tudo, respeitar os outros."
Relacionamento e o intercâmbio entre pais e escola

A concepção e desenvolvimento de um projeto educativo de escola é um ato coletivo e só tem sentido no quadro de um projeto local de desenvolvimento. Um projeto consubstanciado numa lógica comunitária pressupõe ainda uma profunda transformação cultural. O sucesso dos alunos depende da solidariedade exercida no seio de equipes educativas, que facilita a compreensão e a resolução de problemas comuns. Em 1976, os pais não apareciam na escola, mas acreditavam que seria possível estabelecer comunicação com as famílias dos alunos, se os pais não fossem chamados apenas para escutarem queixas ou contribuírem para reparações urgentes. Questionavam por que razão eles iam à igreja, ao estádio, ao café... e não vinham à escola. Quando encontraram resposta, ajudaram os pais dos alunos a fundar uma associação num tempo em que ainda não havia leis para as regular. A associação de pais é hoje um interlocutor sempre disponível, um parceiro indispensável. Mas a colaboração dos pais não se restringe às atividades promovidas pela sua associação. No início de cada ano, todos os encarregados de educação participam num encontro de apresentação do Plano Anual. Mensalmente, ao sábado de tarde, os projetos são avaliados com o seu contributo. E há sempre um professor disponível para o atendimento diário, se algum pai o solicita.A prática diz, ainda hoje, que os pais têm dificuldade em conceber uma escola diferente daquela que frequentaram quando alunos mas que, quando esclarecidos e conscientes, aderem e colaboram.
Os pais participam de todas as decisões. Entendem que se nos rejeitarem, terão de procurar emprego em outro lugar. Também defendem a escola perante o governo. Os pais entram em conflito com o Ministério da Educação. Ao longo desses quase 30 anos, quiseram acabar com o projeto. Compreendem o ministro não tem poder hierárquico sobre as famílias. Se o governo discordar de tudo aquilo que a escola faze, defronta-se com um obstáculo: os pais. Entendem que eles são a garantia de que o projeto vai continuar.
Os pais/encarregados de educação estão fortemente implicados na direção da Escola e nos processos de aprendizagem dos alunos;
Formação de professores
Eles têm a mesma formação que os de outras instituições. O diferencial é que sentem uma inquietação quanto à educação e admitem existir outras lógicas. A escola é a única em Portugal que pode escolher o corpo docente. Os candidatos aparecem geralmente como visitantes e perguntam o que é preciso para dar aulas. Dizem apenas para deixarem o nome. No fim de cada ano fazem contato. Hoje somos 27, cada um com suas especializações.
Adaptação de novos professores à proposta da escola
Há profissionais que estiveram sozinhos em sala durante anos e quando chegam constatam que sua formação e experiência servem para nada. De cada dez que entram, um não agüenta. Outros desertam e regressam depois. A gestão também, por vezes, tem que se adaptar. Há algum tempo receberam muitas crianças e professores novos, não familiarizados com a proposta. Apenas a quinta parte do corpo docente já estava lá quando isso aconteceu. Passaram a conviver com mestres que sabiam dar aula e estudantes que sabiam fazer cópias. Foi necessário dar dois ou três passos para trás para que depois caminharem todos juntos. Precisaram aceitar o que os outros trazem e esperar que eles acreditassem nas suas idéias.
Perfil do alunado
Eles têm entre 5 e 17 anos. Cerca de 50 (um quarto do total) chegaram extremamente violentos, com diagnósticos psiquiátricos e psicológicos. As instituições de inserção social que acolhem crianças e jovens órfãos os encaminham para as escolas públicas. Normalmente eles acabam isolados no fundo da classe e, posteriormente, são encaminhados para a Escola da Ponte. No primeiro dia, chegam dando pontapés, gritando, insultando, atirando pedras. Algum tempo depois desistem de ser maus, como dizem, e admitem uma das duas hipóteses: ser bom ou ser bom.
Integração de estudantes vindos de outras escolas
Não é fácil. Há crianças e jovens que chegam e não sabem o que é trabalhar em grupo. Não conhecem a liberdade, e sim, a permissividade. Não sabem o que é solidariedade, somente a competitividade. São considerados ótimos, mas ainda não têm a cultura que a escola cultiva. Quando deparam com a possibilidade de definir as regras de convivência que serão seguidas por todos ou não decidem nada ou o fazem de forma pouco ponderada. Em tempos de crise, como agora, em que muitos estão nessa situação, precisam ser mais diretivos.
Passos para a transformação na escola atual
Até 1976, a escola era igual a qualquer outra de 1ª a 4ª série. Cada professor ficava em sua sala, isolado com sua turma e seus métodos. Não havia comunicação ou projeto comum. O trabalho escolar era baseado na repetição de lições, na passividade. Naquele ano, havia três educadores e 90 estudantes. Em vez de cada docente adotar uma turma de 30, juntaram todos. O objetivo era promover a autonomia e a solidariedade. Antes disso, porém, chamaram os pais, explicaram o nosso projeto e perguntamos o que pensavam sobre o assunto. Eles nos apoiaram e defendem o modelo até hoje.
Acreditamos que um projeto só é viável quando todos reconhecem os objetivos comuns e se conhecem. Isso não significa apenas saber o nome, e sim ter intimidade, como em uma família. É nesse ponto que o projeto se distingue. O viver em uma escola é um sentimento de cumplicidade, de amor fraterno. Todos que nos visitam dizem que ficam impressionados com o olhar das pessoas que ali estão, com o afeto e a palavra terna que trocam entre si. Não sei se estou falando de educação ou da minha escola, mas é isso o que acontece lá.
Provocações:
  • Não passa de um grave equívoco a idéia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo;
  • Como o professorado poderia partilhar, comunicar, desenvolver um projeto comum?
  • Como poderemos pensar em controlar as águas revoltas de um rio, se nos esquecemos das margens que as comprimem?
  • Quem quer inovar deve ter mais interrogações que certezas;
  • O sistema tem se mostrado viável por pelo menos dois motivos: primeiro, porque os educadores estão abertos a mudanças; segundo, porque as famílias dos alunos apóiam e defendem a escola.
  • Acreditam que um projeto só é viável quando todos reconhecem os objetivos comuns e se conhecem. Isso não significa apenas saber o nome, e sim ter intimidade, como em uma família. É nesse ponto que o projeto se distingue. O viver em uma escola é um sentimento de cumplicidade, de amor fraterno.
  • Não defendem modelos. Consideram que a Escola da Ponte fez o que as outras devem e podem fazer, que é produzir sínteses e não se engajar em um único padrão. Afirmam que não inventamos nada, na educação tudo já está inventado. Consideram que a Escola da Ponte não é duplicável e não há, felizmente, clonagem de projetos educacionais.

Relação com o poder público

Foi assinado, no dia 14 de Fevereiro de 2005, o primeiro Contrato de Autonomia entre o Ministério da Educação e uma Escola Pública. A Ministra da Educação, Drª Maria do Carmo Seabra, visitou pessoalmente a Vila das Aves e a Escola da Ponte para a concretização deste documento, há muito desejado. Como disse a Ana Catarina, Presidente da Mesa da Assembleia, "Há muito que lutamos pela assinatura deste contrato, que nos permite uma maior liberdade de escolha mas também uma maior responsabilidade. Muito obrigada, senhora ministra."


Referências

PACHECO, José. Entrevista: Escola dos sonhos existe há 25 anos em Portugal. Portal Aprende Brasil.http://www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0043.asp. Acesso em 21.04.06.
______Entrevista: É possível fazer uma escola diferente? Portal da Nova Escola. Edição n. 171. Abril de 2004. http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/171_abr04/html/falamestre. Acesso em 21.04.06.

Site oficial da Escola da Ponte - Portugal http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/html2/portug/projecto/projecto.htm

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