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Pintou a macaca

Entendo que algumas pessoas se preocupem com as farsas que a Arte, principalmente a Contemporânea, possa vir a produzir, mas usar um veículo de comunicação poderoso, como é o caso a televisão/novela, para criticar a Arte sem se preocupar em mostrar o outro lado das produções chega a ser irresponsável! A necessidade da crítica é essencial mas para a população a imagem que está ficando da Arte Abstrata e Contemporânea é que " é aquilo que até bicho faz..."
Nesse espaço estrondoso que a televisão possui é realmente uma pena que não haja um enfoque diferente, onde houvesse aproximação da público com a Arte.



Os quadros feitos por um chimpanzé movimentam a novela
Caras & Bocas. É a forma de o autor Walcyr Carrasco criticar
o espírito de manada de muitos colecionadores de arte

Marcelo Marthe




Fotos divulgação/TV Globo

POLLOCK PELUDO
Xico (aliás, Keith) num transe criativo: o bicho caiu no gosto dos espectadores


Nesta semana, a trama da novela Caras & Bocas sofrerá uma virada. A galeria de arte comandada pela protagonista Dafne (Flávia Alessandra) e sua sócia Simone (Ingrid Guimarães) começará a se reerguer graças ao sucesso de uma exposição de telas abstratas. O pintor Denis (Marcos Pasquim) vai levar o crédito pelas obras. Mas o verdadeiro "gênio" não é ele – e sim o chimpanzé que vive, em segredo, no seu ateliê. O enredo não deixa dúvida quanto às intenções do noveleiro Walcyr Carrasco. O autor pretende tecer uma crítica ao mundo das artes (ainda que naquele registro ligeiro típico das comédias das 7 da Globo). "A arte contemporânea é regida por códigos fechados, o que dá margem a empulhações. Quero desmistificar isso", diz Carrasco. O folhetim mostrou colecionadores gastando os tubos em obras de arte feitas de chocolate – alusão óbvia ao artista Vik Muniz e a suas reproduções de pinturas famosas com o mesmo material –, que acabaram derretidas por armação de uma vilã. É inegável que esse espírito de manada dos colecionadores da novela tem seu pé na realidade. "Muita gente compra obras de arte contemporânea em busca de status, sem ter noção de nada", afirma o marchand Jones Bergamin.

A marchande abilolada vivida por Ingrid está nessa categoria: não tem noção de nada. Mantém em sua sala uma escultura de si própria elaborada por um artista primitivista (para fazer companhia a essa peça horrenda, há um retrato de Flávia Alessandra feito pelo paulistano Roberto Camasmie, conhecido pela veia kitsch). E é ela quem mais se deslumbra com a pintura símia. O macaco Xico, aliás, rouba a cena. Uma pesquisa sobre o folhetim concluída na semana passada pela Globo apontou que o animal – que na verdade é uma fêmea, de nome Keith – é tão popular quanto o casal protagonista. "Keith é uma unanimidade", diz Carrasco, com a experiência de quem já escalou de cachorros a uma pata para suas novelas.

Fotos divulgação/TV Globo

MARCHANDE MALUCA
Simone (Ingrid Guimarães) e sua versão em escultura: kitsch da cabeça aos pés

A figura do "macaco-pintor" não é invenção do noveleiro. O caso mais famoso, surgido no fim dos anos 50, foi o do chimpanzé-prodígio Congo, revelado pelo zoólogo e artista inglês Desmond Morris. Congo pintava quadros que supostamente não ficavam a dever ao expressionismo abstrato do americano Jackson Pollock. Virou estrela de um programa de TV e caiu nas graças de artistas consagrados. Pablo Picasso mantinha um quadro dele na parede de seu escritório. Joan Miró trocou duas obras suas por uma do bicho. E Salvador Dalí pontificou: "A mão do chimpanzé é quase humana; a mão de Pol-lock é totalmente animal". Em 2005, telas do macaco foram a leilão e superaram os preços de trabalhos do mestre francês Renoir e do artista pop americano Andy Warhol. Esses exemplos de arte animal já foram celebrados como a consumação extrema dos ideais anárquicos do modernismo – mas, de outro lado, também foram brandidos como prova cabal do embuste representado pela arte moderna.

O chimpanzé da novela tem lá seu talento nos pincéis. O método artístico de sua preferência também é "pollockiano". "Keith mistura tintas de várias cores e depois atira o líquido nas telas", conta o diretor Jorge Fernando. A execução dos quadros atribuídos ao personagem começa desse modo, e depois é completada pelo pessoal da produção da Globo. Nascida em cativeiro no Rio Grande do Sul, a macaca tem 13 anos – e dá um trabalhão nas gravações. A alimentação tem de seguir regras do Ibama (a Globo garante que os pastéis e coxinhas que ela devorou na novela eram de mentirinha). Suas cenas são realizadas cedo, pois a atriz não dispensa uma sesta no fim da tarde. "A estrela gosta de gravar tudo no primeiro take", diz Jorge Fernando. A química entre Pasquim e a macaca impressiona. Antes das gravações, é comum o ator passar um tempo conversando com Keith dentro da jaula. "Não é uma relação fria. Eles estabeleceram uma amizade sincera", revela Carrasco. Eis aí um quadro surrealista.




Disponível em : http://veja.abril.com.br/100609/p_154.shtml


Karlene Braga

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