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sábado, 20 de dezembro de 2008

Saiba como era a vida de Van Gogh em Paris

da Folha Online

Reprodução
Livro trata da vida e da produção artística de Vincent Van Gogh
Livro trata da vida e da produção artística de Vincent van Gogh

As pinturas de Van Gogh são incomparáveis. Seu estilo de pintar e o modo de usar as formas e cores são únicos. Mas nem tudo ele aprendeu sozinho. Na época em que o pintor morou em Paris, ele conheceu outros artistas também importantes como Paul Cézanne, Pissaro e Paul Gauguin, além de ter tido aulas em um estúdio.

O livro "Meu Nome É...Vincent van Gogh", da Publifolha, conta para as crianças como foi um dos períodos mais intensos da vida do artista, no qual ele se mudou Paris e conviveu com outros grandes mestres da arte. Foi uma época marcada por discussões sobre a arte e o apoio de seu irmão Theo.

O título está à venda no site da Publifolha por R$ 17,90. Leia abaixo trecho do livro sobre a vida de Van Gogh em Paris.

*

O estúdio de Cormon

Theo e eu morávamos em seu pequeno apartamento da rua Laval. Lá não havia espaço para um ateliê. Toda manhã, ele ia para a galeria Goupil & Cie, e eu, de guarda-sol, cachimbo e caderno debaixo do braço, percorria as ruas e praças de Paris. Parava nos museus, galerias de arte e mercados. Meus lugares prediletos eram as margens do rio Sena e o bairro de Montmartre, famoso pelo ambiente boêmio.

Theo era o melhor irmão do mundo: conseguiu uma sala grande com estúdio, em Montmartre, levou-me à loja do velho Tanguy para comprar pinturas, telas e gravuras japonesas e me inscreveu no estúdio de Fernand Cormon para ter aulas. Ali melhorei minha técnica ao lado de Henri de Toulouse-Lautrec, Georges Seurat e Paul Cézanne, além de conhecer Émile Bernard, um amigo brincalhão.

Cormon nos ensinou a técnica do cloisonnisme, que consistia em pintar grandes superfícies circulares com cores planas e contorná-las com preto. Era maravilhoso unir as diversas tonalidades para compor a luz e simbolizar os elementos da natureza - como o amarelo para o sol radiante, e o vermelho para o sol poente. Gostava de fazer experiências com essa técnica, em especial para deformá-la e assim aumentar a expressividade de minhas obras.

À tarde, depois das aulas, ouvíamos as palestras dos velhos impressionistas, como Pissarro ou Guillaumin, no Café Guerbois ou no Moulin de la Galette. Pissarro tinha muita experiência, além de ser apaixonado pelas gravuras japonesas.

Ele me ensinou a ver o melhor nelas: as imagens sem sombras nem modelados e sua luz cálida e plana. Também me ensinou a usar cores claras e uma nova forma de situar os elementos na tela. Guillaumin insistiu comigo na necessidade de dividir gradualmente os tons das cores com pequenas pinceladas.

Costumávamos visitar sempre a loja do velho Julien Tanguy. Era um pequeno e curioso armazém de pinturas, telas e um monte de tralha. Ali, o senhor Tanguy nos vendia tudo aquilo de que os artistas precisavam para trabalhar. O amável père, como o chamávamos familiarmente, se esforçava para conseguir os pigmentos, as telas e os pincéis baratos que lhe pedíamos. E, se por acaso não podíamos pagar, dizia: "Está bem, deixe em troca um quadro seu e fica tudo certo". Ele os colocava na vitrine para vendê-los ou os levava para casa, quando gostava muito.

Para aplicar os novos conhecimentos adquiridos, fiz o Retrato do Père Tanguy. Ao pintá-lo, expressei minha gratidão a ele, pois sempre punha meus quadros na vitrine. O amável vendedor ficou horas posando para mim, e guardo sua imagem com carinho. O contorno da figura é simples e vigoroso. O fundo é repleto de estampas japonesas. Os tons de terra queimada com pinceladas cruzadas em ocre e branco servem para formar as rugas da carne e a força das mãos.

Paris à noite

Theo escreveu à nossa mãe: "Vincent fez progressos sensíveis no trabalho e já começa a fazer sucesso. Seu humor também está melhor do que antes, e aqui todos gostam muito dele. Acho que, se continuar assim, vai deixar para trás aquela época de depressão e logo conseguirá se virar sozinho". A verdade é que tudo parecia ir de vento em popa. Eu passava o tempo todo com meus novos amigos, enquanto Theo viajava para a Holanda a trabalho.

Gostávamos das cores vibrantes e de descobrir novas formas de pintar. Paul Gauguin me impressionava pela grande confiança que tinha em si próprio, além de ser o mais farrista do grupo. Émile Bernard me contagiava com seu bom humor e me acalmava nas discussões acaloradas sobre pintura.

Os dois concordavam sobre a importância simbólica das cores. Por exemplo: o vermelho para a paixão, o laranja e o amarelo para o sol e o calor, o azul-escuro para a noite misteriosa etc. Toulouse-Lautrec me convidava para tomar absinto - bebida em moda nos cafés - e falava sobre sua paixão por pintar mulheres. Seurat sempre insistia na importância do traço do pincel. Cézanne achava que a cor exprimia ao mesmo tempo o contorno, o volume e a luz.

Eu me tornei um "tagarela incansável", como me chamava Bernard, cheio de projetos. Ah, os sonhos! Exposições grandiosas, fundações de colônias de artistas no sul da França, invasão dos meios públicos para reeducar o povo Achava que a arte serviria para melhorar o mundo, mas percebi que poucas pessoas me entendiam. Além disso, descobri que havia intrigas demais e ciúme entre os artistas. Aquele ambiente não era para mim.

Meses mais tarde, em Arles, pintei Café Noturno para registrar as sensações e emoções que sentia nas noites que passava nos cafés.

Nesse quadro predominam as cores vermelho e verde, que expressam a paixão e o desamparo. A cena representa algumas pessoas num café mal iluminado por lamparinas a gás. A luz vibra graças às pinceladas em círculo. Os objetos misteriosos estão imóveis no espaço de cores planas.

A vida em Paris era caríssima, alguns artistas me decepcionaram, e ficava entediado por ouvir sempre a mesma coisa. Não sentia nada novo, e faltava-me inspiração. Além disso, nessa época passei a discutir com Theo, que começou a namorar a sério Johanna Bonger, irmã de um amigo, e queria se casar. Senti que atrapalhava os dois e, a conselho de Pissarro e Bernard, fui para o sul da França, na região da Provença. Deixei com Theo meus 200 quadros dessa fase e uns 50 desenhos, mas levei as gravuras japonesas, minhas cores e uma idéia: formar uma comunidade de artistas.



Disponível em : http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u429419.shtml


Karlene Braga

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