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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Paraíba é o terceiro no ranking do analfabetismo funcional

Dominar as habilidades de escrita, leitura e cálculo necessárias para garantir um pleno desenvolvimento pessoal e profissional ainda é uma realidade distante da vida de muitos paraibanos. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios divulgada este ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em todo o Estado, mais de 1,1 milhão de pessoas com dez anos ou mais de idade são analfabetos funcionais. Eles correspondem a 38,1% da população nessa faixa etária que não conseguiu completar quatro anos de estudo, o que coloca a Paraíba na terceira colocação do ranking brasileiro do analfabetismo funcional, atrás somente de Alagoas (39,9%) e Piauí (41,1%).

Os dados também revelam que 67% dos paraibanos que têm menos de quatro anos de estudo vivem na zona urbana e que 53% deles são homens. Dos 1,1 milhão de analfabetos funcionais, 573 mil (19,1%) não têm instrução ou não chegaram a terminar um ano de estudo. São pessoas como os feirantes Rita da Conceição, 75 anos, e Manoel Gonçalves do Nascimento, 40 anos. Dona Rita nunca teve a oportunidade de ir a uma sala de aula. Apesar de ter sido matriculado na escola aos oito anos de idade, Manoel não conseguiu concluir a alfabetização. “Naquela época, os pais eram muito ignorantes e achavam que estudar não enchia a barriga; o que enchia era o trabalho. A gente era matriculado na escola, mas estudava, no máximo, um mês no ano porque tinha que trabalhar na roça. Nunca saí da alfabetização. Sempre repetia de ano. Aprendi a escrever meu nome e algumas palavras, mas tenho muita dificuldade para preencher um cheque ou um documento. Não consigo ler nem escrever uma carta. Isso é ruim porque a gente passa muito constrangimento”, disse.

2% dos universitários no País

O analfabetismo funcional também é um problema que pode atingir pessoas com escolaridade elevada. Estudos realizados pelo Instituto Paulo Montenegro revelam que, na Paraíba, apenas 14% das pessoas com idades entre 15 e 64 anos possuem um grau pleno de letramento e 9%, um grau pleno de numeramento. Isso significa dizer que, praticamente, nove em cada dez jovens e adultos não conseguem ler e interpretar textos longos, resolver problemas mais complexos e nem estão familiarizados com mapas, tabelas ou outras representações matemáticas de uso social freqüente.

Em todo o País, 20% dos jovens e adultos que concluíram a 8ª série do ensino fundamental, 8% dos que têm o ensino médio e 2% das pessoas que cursaram o ensino superior são analfabetos funcionais. O problema é maior entre os que estudaram até a 4ª série do ensino fundamental (atingindo 64% das pessoas).

Apesar de terem freqüentado a escola por muitos anos, esses brasileiros só são capazes de localizar informações explícitas em textos curtos e familiares, de ler e escrever números usuais e de realizar operações simples.

Segundo o Instituto Paulo Montenegro, os dados confirmam que “a escolarização é, de fato, o principal fator de promoção das habilidades de alfabetismo da população: quanto maior o nível de escolaridade, maior a chance de atingir bons níveis de alfabetismo. Entretanto, os resultados mostram também que nem sempre o nível de escolaridade garante o nível de habilidades que seria esperado”.

Ensino fundamental garante leitura

O Instituto Paulo Montenegro – idealizador do índice de alfabetismo funcional (Inaf) – alerta que, sem o ensino fundamental completo, é difícil garantir a uma pessoa um nível básico de alfabetização ao longo da vida. Isso significa dizer que ter oito anos de estudo é importante para fazer com que as pessoas consigam, ao menos, ler e compreender textos de média extensão; ler números na casa dos milhões; resolver problemas envolvendo uma seqüência simples de operações e ter noção de proporcionalidade.
Média de estudos na PB é a 3ª menor

Na Paraíba, fazer com que crianças, jovens e adultos tenham garantido o direito ao ensino fundamental previsto na Constituição é um grande desafio para os gestores, já que a média de estudo das pessoas com dez anos ou mais de idade é de 5,5 anos, a terceira menor do País. Para o professor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Erenildo João Carlos, o problema do analfabetismo funcional obriga a sociedade a refletir sobre a qualidade do ensino e sobre o que a escola tem feito para que o estudante alcance patamares cada vez melhores de alfabetismo. “Certamente, podemos levantar a hipótese, de que poderemos encontrar alunos dos anos finais do segundo segmento do ensino fundamental e médio, que ainda não atingiram o nível pleno de alfabetismo”, considerou.

Precariedade

De acordo com o professor Erenildo, analfabeto é aquele que não tem nenhum domínio sobre a escrita, ou que lê e escreve precariamente algumas palavras e frases. “O analfabeto funcional, diferentemente, tem um relativo domínio da leitura e da escrita, mas, a depender do seu nível de compreensão, poderá ler e escrever de forma rudimentar, básica ou plena. No nível pleno, o leitor está pronto para ler o mundo pela mediação da palavra, a fazer da escrita uma fonte de conhecimento e de aprendizagem ao longo de sua vida; a usar a escrita como forma de expressão pessoal, de comunicação cultural e de reivindicação social. Nesse caso, ler e escrever passam a ser vistos como sinônimos de saber e poder”, explicou.

Pobreza nega o acesso à educação

O analfabetismo e o analfabetismo funcional estão presentes na vida de três em cada quatro famílias pobres da Paraíba. De acordo com os indicadores territoriais da população com baixo rendimento, divulgados na semana passada pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em 74,6% dos domicílios com renda per capita inferior a meio salário mínimo, o responsável não tem instrução ou possui menos de quatro anos de estudo.

A publicação revela que a pobreza não se limita apenas à insuficiência de renda das famílias. Além da vulnerabilidade social, das condições habitacionais, da disponibilidade de recursos, do desenvolvimento infantil e do acesso ao trabalho, a pobreza tem como uma de suas dimensões mais perversas a negação do acesso ao conhecimento. “O analfabetismo funcional está estreitamente relacionado ao problema da desigualdade social que gera a distribuição desigual do acesso e do usufruto aos bens sociais e culturais, produzidos pela humanidade, dentre os quais, a escrita. Não é à toa que o analfabetismo é um indicativo de baixo desenvolvimento humano”, argumentou o professor da UFPB, Erenildo João Carlos.

Segundo o doutor em educação, pensar a questão sob esse prisma implica reconhecer que as causas do analfabetismo funcional estão dentro e fora da escola. “De um lado, (o problema está) numa sociedade pautada na propriedade privada, na desigualdade, na negação da diversidade, na negação efetiva e cotidiana do direito público subjetivo do cidadão ao acesso e usufruto da saúde, da moradia, da terra, do saneamento, do emprego e da educação. De outro, numa escola que ainda não conseguiu universalizar o ensino de qualidade, o que implica, dentre outras coisas, um currículo adequado à realidade do aluno; uma escola organizada a partir da gestão democrática; um projeto político pedagógico construído e realizado coletivamente; um currículo interdisciplinar; um profissional qualificado; um livro didático compatível com a diversidade regional, local, racial e de gênero; um trabalhador da educação bem remunerado e com condições ótimas de trabalho; uma escola bonita, atraente e motivadora”, explicou.

“Não sei ler e escrever”

Mesmo sem ter ido à escola ou tendo freqüentado pouco a educação formal, analfabetos funcionais que trabalham no Mercado Central, em João Pessoa, como Rita da Conceição, 75 anos, e Manoel Gonçalves do Nascimento mostram o quanto atividades cotidianas e o trabalho são importantes para proporcionar às pessoas oportunidades de aprendizado.
Dona Rita disse que aprendeu a fazer conta de cabeça e a passar o troco no mercado, vendendo fruta como mangaba e cajá. “Não sei ler e escrever, mas sei pegar o ônibus para ir para casa e para o trabalho. Vejo a placa e sei que é o ônibus, mesmo sem saber o que está escrito. Queria saber ler para modo de ler a bíblia porque sou evangélica”, disse.

Manoel foi matriculado na escola aos oito anos de idade. Apesar de não ter conseguido terminar a alfabetização, aprendeu a ler a bíblia sozinho e a fazer contas de adição, subtração, divisão e multiplicação no trabalho. “Conta eu sei bastante. Aprendi no dia-a-dia no comércio. O trabalho me ensinou muito. Mesmo assim, sei que a escola é importante e incentivo meus filhos a estudar”, contou.

“Agora, me sinto mais cidadã”

Dona Carmelita Carneiro da Cunha, 48 anos, resgatou o sonho de estudar para poder ajudar e incentivar seu filho de 16 anos. Até os dez anos, ela nunca tinha ido à escola. “Morava no sítio e tinha que trabalhar na enxada. Tive que vir para João Pessoa trabalhar em casa de família para estudar. Achava tão bonito o pessoal estudar... Meu coração bateu a mil quando pisei a primeira vez na escola. Me sentia importante de bolsa e farda. Estudei até a 3ª série e só aprendi a ler, tenho muita dificuldade para escrever. Parei de estudar com 15 anos para trabalhar. Tive filho e parei de vez. Voltei a estudar quando meu filho começou a ir para a escola porque ele tinha dificuldades nas tarefinhas e eu não conseguia ajudar. Mas, acabei desistindo de novo porque era muito cansativo. Agora que posso estudar aqui, resolvi voltar. Antes me sentia perdida, agora, me sinto mais cidadã”, disse.

Projetos ajudam a mudar rumos

Diversos setores têm se mobilizado para combater o analfabetismo e o analfabetismo funcional, na Paraíba. Políticas públicas desenvolvidas por secretarias de educação e projetos criados por universidades, empresas, sindicatos e sociedade civil organizada possibilitam aos jovens e adultos que não dominam a escrita e a leitura resgatar o sonho de estudar.

Em João Pessoa, a Prefeitura criou uma sala de aula do Programa Brasil Alfabetizado no galpão onde funciona o Projeto Acordo Verde, no bairro de Mangabeira. Com isso, 15 dos 30 agentes ambientais responsáveis pela coleta seletiva na cidade puderam ser alfabetizados. Atualmente, eles prosseguem no curso de pós-alfabetização e no próximo ano, deverão ingressar em salas regulares.

Segundo a professora Thayana Priscila Domingos da Silva, 20 anos, as aulas acontecem de segunda a quinta-feira, das 7h às 9h, durante a jornada de trabalho dos agentes. “Dos 15 alunos, cinco não sabiam ler e escrever nada. Muitos até copiavam, mas não sabiam o ler e nem entendiam o que estavam copiando. Muitos não sabiam fazer contas e agora estão aprendendo e isso está melhorando a auto-estima deles e a postura deles também. Antes, eles recebiam o dinheiro e tinham que confiar nas pessoas; hoje, eles conferem o valor”, disse.

“Quero dar um exemplo bom a meus filhos”

Um dos alunos atendidos é o agente ambiental Ednaldo da Silva Cassiano, 23 anos, que mora na Comunidade Timbó. “Parei de estudar com 15 anos. Estudei até a segunda série (ensino fundamental). Nem sei quantas vezes repeti de ano. Parei de estudar porque comecei a trabalhar de servente de pedreiro. Nem meu pai, nem minha mãe sabem ler e escrever. Minha mãe só sabe fazer o nome dela. Eles mandavam eu ir para a escola, mas eu não me interessava... Voltei a estudar, porque quero dar um exemplo bom para meus filhos, ajudar eles na escola e conseguir um emprego melhor. Nas favelas, é muito difícil ser um repórter, um policial... é só serviço pesado, de gari, de pedreiro. A pessoa tem que estudar porque é com a Educação que consegue mudar isso”, disse.
Gerson Fernandes da Silva, 20 anos, mora em Mangabeira e também resolveu voltar a estudar para aprender a andar de ônibus na cidade e para conseguir um emprego melhor. “Estudei até a 5ª série e parei com 18 anos porque comecei a trabalhar. Não aprendi a ler e a escrever e tinha dificuldade de andar na rua. Não sabia pegar um ônibus. Hoje, já sei. Antes não podia escrever e ler uma carta. Não sabia fazer contas e me sentia culpado”, disse animado.
Cristina Fernandes

Fonte: http://www.portalcorreio.com.br/jornalcorreio/matLer.asp?newsId=59955 Acesso em 30/11/2008.
Mensagem enviada por e-mail por Erenildo João Carlos

(Erinaldo Alves)

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