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sábado, 27 de dezembro de 2008

Nova York de Pollock revisitada pela crítica

Em New Art City, Jed Perl conta como a cidade virou capital da arte nos anos 1950

Antonio Gonçalves Filho


Recentemente o crítico de arte norte-americano Jed Perl, do jornal The New Republic, publicou um ensaio polêmico sobre arte contemporânea, argumentando que o mercado enlouqueceu ao superestimar nomes como Damien Hirst, Jeff Koons e Murakami. Perl acha que o mundo da arte deve olhar para o passado e acertar o passo com a história, revalorizando o papel que pintores como Watteau, no século 18, ou Willem de Kooning, na segunda metade do século 20, tiveram como verdadeiros pioneiros. Perl tem seu mais ambicioso livro, New Art City - Nova York, Capital da Arte Moderna, lançado no Brasil pela Companhia das Letras (tradução de Vera Pereira e Pedro Maia Soares). Ele trata de artistas como De Kooning, Jackson Pollock e Hans Hofmann, que, em meados do século passado, assumiram a missão de transformar Nova York na capital da arte moderna, papel que, até o fim da 2ª Guerra, havia pertencido a Paris.

Muitos historiadores revisionistas atribuem essa troca não apenas ao esforço artístico dos pintores ligados ao expressionismo abstrato, mas a uma estratégia da CIA para propagandear o espírito libertário da América liberal numa Europa dividida pela Cortina de Ferro. Jed Perl admite que a agência de inteligência norte-americana pode até ter dado uma força para Pollock ser transformado no líder de um movimento que mudaria o panorama artístico internacional, mas prefere crer que os expressionistas abstratos eram criativos o bastante para dispensar a ajuda do governo. Nesta entrevista ao Estado, reproduzida a seguir, Perl fala de New Art City e também de seu mais recente livro, Antoine?s Alphabet, sobre o pintor rococó Jean-Antoine Watteau.

Seu livro New Art City pretende redefinir o lugar do expressionismo abstrato nos anos 1950, valorizando o papel de pintores como Hans Hofmann e Fairfield Porter. Parece claro no livro que alguns artistas do período ficaram célebres graças ao apoio de galeristas e críticos influentes, embora alguns historiadores defendam que a CIA também teve um papel importante na promoção de nomes como Jackson Pollock, usado como sinônimo da liberdade individual na América durante a Guerra Fria. Qual a sua opinião sobre esse revisionismo histórico?

Não há dúvida que, terminada a 2ª Guerra, muitas pessoas nos EUA pareciam dispostas a instrumentalizar o expressionismo abstrato, para mostrar aos intelectuais e artistas europeus que a democracia liberal norte-americana encorajava - ou pelo menos criava condições para isso - a liberdade de expressão. Esse esforço partiu principalmente do Conselho Internacional do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), mas, segundo meu ponto de vista, a importância da CIA ou outras agências governamentais na promoção da arte americana foi superestimada. Devo lembrar que muitos membros do Congresso viam com antipatia a nova arte americana surgida nos anos 1950. E, depois, não vejo por que tenhamos de aceitar o discurso de alguns historiadores de que sempre havia um sinistro motivo publicitário para promover uma exposição de Pollock ou qualquer outro expressionista abstrato americano. O que há de errado em apresentar os frutos de uma sociedade democrática liberal?

Parece que não só a geografia de Nova York, mas o temperamento da cidade atraiu artistas estrangeiros como Mondrian e Duchamp, além de Hofmann, Gorky e Albers. Por que Nova York, depois do fim da 2.ª Guerra, pôde enfrentar os desafios da arte, e não a França, apesar da presença de artistas como Picasso e Giacometti em Paris?

Obviamente, muitos europeus acabaram na América por conta da ameaça nazista, mas creio que havia, além disso, uma atmosfera favorável para novas experiências artísticas em Nova York. A cidade estava ainda em construção, era relativamente jovem e aberta, encorajando artistas experimentais. Mondrian mesmo disse que nunca havia se sentido mais feliz do que em Nova York.

O crítico Clement Greenberg, a despeito de ser considerado o porta-voz dos artistas da vanguarda americana dos anos 1950, é uma presença discreta no livro. Você diria que Greenberg foi injusto com alguns artistas do período, considerando a atenção que você dedica a Joan Mitchell e outras mulheres artistas? Greenberg era chauvinista como os integrantes do Clube dos Artistas ao qual pertencia De Kooning?

A verdade é que Greenberg, nos anos 1950, era visto por muitos como uma entre as muitas vozes críticas influentes da época. Harold Rosenberg, Thomas Hess e Meyer Schapiro eram muito mais importantes que ele. Então, parte de que tento fazer em New Art City é resgatar a rica tapeçaria de opiniões críticas. Quanto ao lugar das mulheres artistas do período, o fato é que era muito mais fácil para os homens conseguir um lugar nesse mundo fechado, embora a situação não fosse exatamente adversa para mulheres talentosas. Greenberg deu seu apoio a algumas delas, em especial a Helen Frankenhalter, com que estava emocionalmente envolvido, mas também deu um empurrão na carreira de Joan Mitchell.

Você diz no livro que, se prestarmos atenção às idéias que circulavam nos anos 1940 e 1950, certamente voltaríamos ao romantismo, considerando a origem de todos os esforços artísticos de Hans Hofmann, que convergiam para a escola européia, ou seja, aos românticos expulsos da academia e revoltados contra o classicismo. É curiosa a comparação que você faz entre De Kooning e a pintura dos irmãos Le Nain, pintores do século 17. É possível dizer que De Kooning reprimiu sua vocação figurativa para ser o porta-voz de toda uma geração?

De Kooning, de fato, vai e volta nessa viagem entre a figuração e a abstração. Depois de pinturas abstratas em preto-e-branco, nos anos 1940, ele pinta mulheres, volta posteriormente à paisagem abstrata e, finalmente, retoma a figura. Naturalmente, mesmo como um pintor figurativo, sua filiação é romântica, não clássica. Devo lembrar que há figuras e rostos também em Pollock, nos trabalhos de 1950. Não chamara De Kooning nem de vítima e tampouco de porta-voz de sua geração. Acho que foi um homem de sentimentos fortes, que pretendeu exprimir o drama e as emoções de uma época turbulenta.

No capítulo dedicado à arte pop você defende que o crash de 1962 foi evitado graças à emergência de uma nova categoria de consumidores nos EUA. Num momento em que assistimos à queda das bolsas e experimentamos um desastre econômico, talvez até das mesmas proporções de 1929, ainda que camuflado, como você imagina o mercado de arte futuro?

É muito difícil prever o futuro em arte, como de resto em qualquer outra área. Algumas pessoas esperam que essa nova ordem econômica coloque as coisas em seu devido lugar, acabando com o sensacionalismo dos últimos 15 anos, mas não estou bem certo se os investidores que aplicaram dinheiro em Damien Hirst, Jeff Koons ou Murakami estejam dispostos a perdê-lo em nome da arte. De qualquer modo, pode ser que alguns artistas sérios que corriam por fora tenham agora uma nova chance nesse mercado. Creio também que talvez cresça o interesse por trabalhos que rejeitam os valores dessa era que parece estar chegando ao fim.

Considerando os esforços de De Kooning nos anos 1950 para se tornar um herói do expressionismo abstrato e sua posição nos anos 1960, quando seu lugar foi ocupado por Andy Warhol e Lichtenstein, o que aconteceu para que os artistas pop rejeitassem essa sua herança?

Havia uma seriedade, uma intensidade e um fervor tão grande no expressionismo abstrato que muitas pessoas não se sentiam à vontade frente ao espírito hedonista e escapista dos anos 1960. A pop art não se desenvolveu com base numa tradição, mas no interesse dos artistas pela publicidade e pelo marketing. Enquanto o expressionismo abstrato foi uma reação ao cubismo e ao surrealismo, a arte pop foi uma resposta aos consumidores da Madison Avenue e aos supermercados.

Recentemente você lançou um livro sobre Watteau, Antoine?s Alphabet (O Alfabeto de Antonio). Nessa sua volta ao passado, estaria um protesto contra os falsos profetas da arte contemporânea, tipo Damien Hirst, Jeff Koons e Murakami?

Não sei se poderia chamar O Alfabeto de Antonio de protesto, mas é, definitivamente, um livro sobre a riqueza e a sutileza de arte, que você não encontra nos trabalhos de Hirst, Koons ou Murakami. O que me fascinou em Watteau não foram apenas seus desenhos e pinturas, mas a reação de grandes criadores como Cézanne, Picasso e Beckett diante de sua obra. O Alfabeto de Antonio é um livro sobre as possibilidades caleidoscópicas da arte, sobre a permanência de um trabalho pictórico que nos afeta três séculos depois de ter sido executado.

Você admira artistas como Earl Kerkam e Louisa Matthiasdottir, menos conhecidos que Pollock. O que pensa do papel de críticos como Greenberg, Rosenberg e Steinberg, que pouco falaram deles, além de seu contemporâneo Arthur Danto, que decretou o fim da história da arte e escreveu, na revista Bookforum, que você parece ter vivido os anos 1950 para ter escrito todas essas histórias de New Art City?

Sinto que poderia ser um elogio de Danto esse de que New Art City parece ser um livro escrito por alguém que viveu nos anos 1950. Era justamente o que pretendia com o livro, mas creio que ele está dizendo, de modo irônico, que fui sentimental ao tratar dos anos 1950, afirmação da qual tenho de discordar. Creio que mostrei tanto a riqueza como os aspectos mais problemáticos dessa época. A variedade de posições críticas, meio século atrás, é maior do que se imagina. Kerkam e Matthiasdottir, menos conhecidos que Pollock e De Kooning, tinham admiradores, seguidores e reputação incontestável no mundo da arte. Prova disso é o trabalho de Earl Kerkam, tremendamente respeitado por Pollock e Kline.

Na última parte de seu livro, o pintor Fairfield Porter emerge como um artista do nível de Watteau, outra de suas afinidades eletivas. Porter não gostava da idéia de Eakins de que a pintura poderia ser uma ciência. E você, o que acha disso?

Acho que a arte é, essencialmente, uma expressão de sentimentos, de sensibilidades. Naturalmente há muitas outras coisas envolvidas na criação de trabalhos que exprimem emoções fortes. Mas, no final, acho que é a natureza sensual, emocional, mágica e misteriosa da arte que realmente prende a nossa atenção. Acho que isso explica minha paixão por Watteau e meu interesse pelo romantismo dos expressionistas abstratos do século passado em Nova York, porque, fundamentalmente, sou um romântico.

A arte brasileira começa a ser discutida por críticos estrangeiros e a ocupar museus da Europa e dos EUA. Quais são os artistas brasileiros que você admira?

Tenho interesse particular na pintura de Beatriz Milhazes, que recentemente foram exibidas em Nova York. Elas têm uma energia bem "jazzy". Como muitas outras pessoas, fico sabendo de um ou outro artista brasileiro por meio de rápidas olhadelas em revistas, mas estou tentado a aprender mais sobre o advento da pintura abstrata no Brasil nos anos 1950.



New Art City
Jed Perl

Companhia das Letras
688 págs., R$ 89


Disponível em : http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081221/not_imp297041,0.php

Karlene Braga

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