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Maurício Ianês faz balanço dos 13 dias em que morou, pelado, no vazio da Bienal

SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo

Maurício Ianês se jogou pelado num rio cheio de piranhas. Essa foi a sensação do artista quando começou a viver no pavilhão da Bienal sem roupa nem comida, sua performance nesta edição da mostra. Entre os dias 4 e 16 de novembro, dependeu das doações dos visitantes para comer e se vestir.

Danilo Verpa/Folha Imagem
Maurício Ianês antes da performance "A Bondade dos Outros"
"Eu já entrei com medo e fiquei com mais medo ainda, pensei muito em desistir", diz Ianês

"Para ser sincero, eu não esperava terminar esse trabalho", conta Ianês em entrevista à Folha. "Eu já entrei com medo e fiquei com mais medo ainda, pensei muito em desistir."

Isso porque, apesar de ser conhecido por iniciados nas artes plásticas --suas performances polêmicas na galeria Vermelho, como quando se deitou no chão nu e coberto de purpurina por horas seguidas, já tinham sua parcela de público--, Ianês nunca havia despertado interesse tão grande da imprensa.

"A gente é tratado como um pedaço de carne jogado num rio de piranhas", desabafa. "Se falarem mal do meu trabalho, tudo bem, mas não estou acostumado com esse tratamento de celebridade, do ser humano como objeto, isso me assustou."

Sustos à parte, não seria exagero dizer que a performance de Ianês entrará para a história desta Bienal, encerrada ontem, como a experiência mais bem-sucedida de uma mostra considerada um grande fracasso por boa parte dos críticos.

Se a idéia dos curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen era aproximar o público da arte, nada tornou esse contato tão vivo quanto a presença corajosa e insólita de Ianês, que vagou nu pelo andar vazio e ganhou roupas e comida do público.

Cara a cara

E tudo isso olho no olho. Ianês decidiu não falar nos 13 dias que passou vivendo no pavilhão. Toda a comunicação se dava por mímicas e olhares.

Ele lembra que um menino chegou a ficar 40 minutos sem desviar os olhos dos seus, nem falar uma palavra. O artista não agüentou e fez um gesto para encerrar o encontro. Uma platéia silenciosa, que se juntara em torno deles, acompanhou tudo e aplaudiu só no final.

A reação surpreendeu Ianês, que desconfiava da resposta do público. Passar 40 minutos olho no olho com um desconhecido não se compara a garantir a audiência atenta do grande público, que não se desgrudou dele em duas semanas de performance --duas mulheres chegaram a visitar o artista todos os dias na Bienal.

Mesmo quando ficou doente --Ianês passou mal por causa da má alimentação durante a performance e chegou a vomitar quatro vezes num dia--, o artista não interrompeu a ação, tentando manter estreito esse laço com desconhecidos.

Auto-ajuda

"Eu era a projeção da necessidade das pessoas, que me viam com uma carga religiosa, como se eu apontasse o caminho da vida", descreve Ianês. "Isso mostrou muito a carência de todo mundo, entendi porque os best-sellers acabam sendo sempre livros de auto-ajuda."

No final, Ianês sentiu que não era ele quem estava na posição mais vulnerável. Mesmo que dependesse da bondade dos outros, virou uma espécie de oráculo silencioso, um xamã no andar vazio: nessa onda religiosa, visitantes confessaram até seus pecados ao artista.

"Era uma situação em que todo mundo podia se expressar, e as pessoas aproveitaram para ter um contato mais íntimo", lembra Ianês, que ouviu até confissões de gente que traiu o namorado. "Minha mãe, minha tia e amigos usaram o trabalho para dizer coisas que não diriam em casa. Tenho vontade de armar mais situações assim, esse cara a cara tão forte."

Impossível afirmar se essa força vai ou não se repetir nos próximos trabalhos de Ianês, que tenta agora medir o peso do próprio sucesso nesta Bienal. "Dizer que minha performance salvou a Bienal não me diz nada, embora todo mundo diga que a mostra foi uma merda", diz o artista. "Colocaram a cruz nas minhas costas; é uma carga que eu não gosto de carregar."


Editoria de Arte




Disponível em : http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u475902.shtml


Karlene Braga

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