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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Invenção do mito barroco

Escritora questiona a imagem construída em torno do artista mineiro Antônio Francisco Lisboa. Em seu ensaio, o Aleijadinho não “existiu”

Aleijadinho existiu? De acordo com o livro "O Aleijadinho e o Aeroplano - O Paraíso Barroco e a Construção do Herói Colonial" (Civilização Brasileira, R$ 45), de Guiomar de Grammont, a resposta é "não". Aleijadinho não "existiu". Quem existiu foi Antônio Francisco Lisboa, escultor pobre, que viveu em Vila Rica no século XVIII e teve uma vida muito mais prosaica do que a do mito consagrado na história. Existiram diversos "Aleijadinhos", inventados à medida que se deu a construção nacionalista de uma imagem da "arte brasileira" em diferentes contextos, do século XVIII até hoje. Cada momento criou o seu Aleijadinho em diversos gêneros literários e científicos, segundo a autora, que é doutora em barroco mineiro e diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto.

"Aleijadinho tornou-se um monstro sagrado, espécie de Hefesto, deus coxo capaz de fabricar maravilhas, indefinidamente, em sua forja. Em minha opinião, a principal injustiça foi torná-lo esse ser inumano, grotesco, deslocado do seu tempo. Grande parte das obras importantes do período levaria a assinatura de Aleijadinho, o que é inconcebível, uma inverdade histórica que desrespeita também a obra comprovadamente produzida pelo ateliê do talentoso artífice Antonio Francisco Lisboa. Seria necessário que o Aleijadinho tivesse tido dez vidas a mais para realizar tudo o que se lhe atribui", explica Guiomar.

Ao analisar os documentos reunidos sobre a história do artífice, a autora chega a conclusões absolutamente inéditas: não há prova de que Antônio Francisco Lisboa tenha sido filho de Manuel Francisco Lisboa ou de que ele tenha sido arquiteto, como afirmam os críticos que lhe atribuem o risco de diversas obras arquitetônicas, entre outros pontos polêmicos. Guiomar mostra como o mito foi reapropriado e tomado como evidência histórica, sem contestação, em diversos programas da história do pensamento sobre artes e letras no Brasil. Nos séculos XIX e XX, vários discursos interpretaram as obras atribuídas ao Aleijadinho a partir de noões raciais, ambientais, psicológicas, artísticas e políticas não existentes no tempo çem que o personagem viveu.

SOBRE A AUTORA

Guiomar de Grammont é escritora e dramaturga, atualmente diretora e professora de filosofia do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. Premiada com a Bolsa Vitae e o Casa de las Américas 1993, publicou diversos livros, entre eles, Don Juan, Fausto e o Judeu Errante em Kierkegaard e Sudário. Criou e coordena o Fórum das Letras e é curadora de espaços literários nas Bienais do Livro do Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Começa a levar a literatura brasileira para outros países, com eventos como o Letras em Lisboa, realizado em abril de 2008.


Disponível em : http://jornal.onorte.com.br/domingo/show/#


Karlene Braga

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