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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

De volta ao cubo branco

Mostra no IAB reúne em espaço tradicional a produção emergente da arte contemporânea de João Pessoa

A quarta edição do Festival Mundo reúne, até a próxima sexta-feira (31), no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), localizado no largo da Igreja São Frei Pedro Gonçalves, no Centro Histórico, a produção emergente de arte contemporânea de João Pessoa. Assina a curadoria da exposição o jornalista Fabbio Queiroz.

O projeto, segundo Fabbio, consiste em acompanhar a produção de jovens que começaram a produzir no final do século passado a arte deste século, levando para o espaço expositivo tradicional, o cubo branco, experimentações que surgiram na contramão da arte produzida tradicionalmente para estes espaços. E é o curador que apresenta, a seguir, do ponto de vista de técnico e temático, cada um dos artistas participantes da mostra.

Personagens infantis extraídos do universo da televisão, cada dia mais perversa, para o suporte tradicional da pintura, gênero este cada dia mais reinventado, e as imagens da vida degenerada dos adultos que habitam o universo pós-moderno das cidades, capturadas pela lente digital de Raphael Voleseele abrem uma perspectiva nova para o discurso na fotografia e na pintura, influenciando sobremodo o resultado estético.

O ato lúdico de produzir fotos pessoais utilizando imagens de capa de discos (vinis) é a base do trabalho das gêmeas Crisedani, duas artistas graduadas em artes visuais que lançam mão de recursos aparentemente banais para produzir a série "Sleevface". O dado novo no trabalho delas é a transposição dessa linguagem para o universo da criação livre, utilizando ferramentas da formação acadêmica sem perder o frescor e a originalidade dessa deliciosa brincadeira forjada no universo da Pop Art.

Cristina Carvalho apresenta uma escultura extraída de uma série que se chama "Impressões". Um violino e um arco envolvidos em fitas de cetim vermelho dispostos verticalmente numa base transparente de acrílico remetem a um corpo vivo engessado por forças que fogem ao controle da artista, que ao invés de assistir passivamente a decomposição deste corpo, prefere vê-lo "embalsamado pelos seus sentimentos".

A fotografia digital tornou-se a pintura do século XXI pelas inúmeras possibilidades de realização deste recurso tecnológico, o que não quer dizer que a pintura trompe l'oil esteja morta. Ao contrário, ela tem evoluído e muito graças ao desprendimento de alguns artistas aos modos tradicionais de produzi-la. As fotografias de Alice Estrêla são instantâneos de céus, que hora estão arrumados, ora desarrumados, mas que se tornam matéria-prima para o olhar da artista que imprime em suas fotografias uma aura só encontrada nas pinturas clássicas e renascentistas.

Onde fica aquele lugar que só existe na memória, como demarcá-lo ou apreendê-lo para que ele não fuja e leve consigo a esperança de tê-lo para sempre? Apenas a arte é capaz de responder a essa questão, pois nela o intangível, o improvável, o impossível tornam-se matéria para produzir efeitos e reações que só acontecem no universo psíquico do ser humano. As fotografias de Manoel Fernandes da série "Onde" são uma tentativa, bem sucedida, de demarcação desses fragmentos instantâneos da percepção humana, um flagrante do olhar de quem está atento em um mundo aparentemente abandonado pelos seres vivos.

A geração de artistas que surgiu após a Segunda Guerra teve de aprender a viver em meio aos escombros do teatro de operações bélicas e a conviver com os fantasmas criados pela mesma civilização que construiu este mundo em que se vive hoje. Ou seja, uma guerra é um evento, como uma Olimpíada, como um desfile de moda, como um concerto do Radiohead. O fascínio de Verdeee pelas figuras emblemáticas que ilustraram e ilustram esse mundo absurdo com a sua arte é o que abastece a sua produção.

O hábito de portar uma câmera digital está incorporado ao cotidiano do indivíduo contemporâneo da mesma forma que a paisagem por onde este indivíduo transita se transforma todos os dias. Estudante de Jornalismo e designer de moda, Sarah Falcão trabalha com moda e cultura aliados ao jornalismo. Utiliza a fotografia para falar do seu infinito universo particular.

Agência Imaginária é uma ação coletiva, embora não seja um coletivo de arte, articulada a partir da desconstrução do conceito de autoria e propriedade no ato criativo. Uma ação não pressupõe necessariamente uma autoria ou uma finalidade, ela está contida em si e deve ter força própria para transformar o entorno em que ela é desenvolvida. O letreiro "Deus" é um designer e um emblema dessa articulação que

O objeto "Saia Abajur", de João Faissal, é uma peça de design que está inserida no contexto do objeto de arte, já que não há nenhuma premissa que afirme o contrário. Pois um objeto criado para ser uma obra prima é também um objeto utilitário decorativo. Formado em design no Canadá e com experimentações em artes gráficas, trabalha com design e atua em outras frentes de criação, como a música e o pensamento criativo.

As pinturas-objetos de Tiago Trapo produzidas em portas de armários dão a medida do quanto já nos distanciamos do modo clássico de realizar e observar a pintura. Os conteúdos que remetem a crises extrapolam o assunto predileto desta tradicional categoria da arte, como: naturezas-mortas, retratos, paisagens etc. Cada época tem a sua forma de representar o presente, a nossa não poderia nunca mais ser como a de Rafael, Leonardo ou Michelangelo.

As fotografias de Eduardo Mousinho são instantâneos de experimentações com a luz em movimento através da técnica lightpaint, uma forma de captar a luz em seu estado alucinado e alucinante. Participou da última edição do Salão de Novos do Serviço Social do Comércio (Sesc) com esta série de fotografias sem título.

Pequenas aplicações de flores modeladas em argila, de extrema força e delicadeza, tecem uma renda que tomará a forma de um vaso, batizado por Paloma Diniz como Vaso de Flores, resultando em um objeto aparentemente simples, mas extremamente sofisticado.

SAIBA MAIS

A exposição coletiva do Festival Mundo 2008 foi aberta no dia 16 deste mês e permanecerá aberta até sexta-feira (31). O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) está no localizado no largo da Igreja São Frei Pedro Gonçalves (ao lado do Hotel Globo), no Centro Histórico. A mostra está aberta das 8h às 12h e das 14h às 18h, de segunda à sexta-feira. Informações pelo telefone (83) 3222-1975.


Disponível em : http://jornal.onorte.com.br/terca/show/


Karlene Braga

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