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domingo, 28 de setembro de 2008


Revelações de Agnaldo Farias
Crítica, curadoria e associações de críticos


Em entrevista publicada com exclusividade no site ArteCidadania, Agnaldo Farias reclama da ausência da crítica na mídia brasileira, comenta sobre curadores que não sabem escrever e o papel das associações de críticos que, segundo ele, "só servem para ofertar comendas e premiações".


Agnaldo Farias (fotografia de Romulo Fialdini)

O portal ArteCidadania (http://artecidadania.org.br/) publicou, em 19 de junho de 2006, declarações ácidas do curador Agnaldo Farias, concedidas com exclusividade à jornalista Néri Pedroso.

Farias concedeu a entrevista quando esteve em Florianópolis (SC), participando do projeto Conversa de Artista, coordenado pelo SESC/SC. Dentre os assuntos abordados, Agnaldo lamenta a ausência da crítica analítica nos jornais brasileiros, afirmando que a idéia parece ser mesmo exterminar, acabar. "Os jornais estão cada vez mais superficiais" , considerou.
Sobre curadores e curadorias, Farias lembrou que há curadores mal formados, ignorantes e que sequer sabem escrever sobre o trabalho, "uma barbaridade só possível num país como o Brasil".
Ao comentar a atuação das associações de críticos de arte, como a ABCA e a APCA, que segundo Agnaldo "só servem para oferecer comendas e premiações", o curador afirmou o que muitos sabem, mas pouquíssimos têm coragem de afirmar: "É paroquial, não há outra palavra. É lamentável".

Veja o texto completo:

As revelações de Agnaldo Farias
Em Florianópolis, crítico e curador de arte esclarece distinções entre as duas atividades e faz críticas à mídia impressa que parece desejar o extermínio das discussões mais analíticas
Néri Pedroso

Criador e destruidor de reputações, o papel do crítico de arte e da curadoria é um assunto mobilizador. O auditório lotado do Teatro do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Florianópolis, na segunda edição do projeto Conversa de Artista, comprova o potencial do tema. Uma platéia, inicialmente atenta e depois interrogativa, acompanhou o anfitrião Fernando Lindote, que teve como convidado o crítico de arte e curador Agnaldo Farias.

O professor e doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) tem poder no panorama da arte brasileira. Na apresentação, além das significativas publicações, foram citadas suas atuações mais recentes, a de curador geral do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), curador adjunto da Fundação Bienal de São Paulo e curador de exposições temporárias do Museu de Arte Contemporânea (MAC), da USP.

Conversa de Artista, o projeto do Sesc coordenado por Fernando Lindote, um dos destaques da arte contemporânea nacional, busca aproximar o público de importantes expressões do campo da cultura. No palco do teatro, um cenário mínimo: iluminação centralizada, duas cadeiras, um microfone no pedestal, uma mesa com uma jarra e dois copos de água. Sem um roteiro preestabelecido Lindote questiona o convidado. Nos dois momentos - tanto no primeiro, com o curador independente Charles Narloch, quanto no segundo, com Farias, o encontro foi pautado pela descontração. Bem à vontade, ambos fizeram revelações importantes sobre os olhares e os mecanismos que marcam as montagens de exposições, salões, projetos artísticos e relacionamentos neste universo.

Farias inicialmente situou como construiu sua carreira acadêmica e profissional, elencando cronologicamente seu encontro, quase casual, com o mundo das artes. Relatou situações curiosas, algumas engraçadas, muitas determinantes para o trabalho que o transformou num dos nomes mais importantes da cena brasileira. Estabeleceu também diferenciações num campo minado, pontuou os cuidados que um curador deve adotar, detalhou como ajudou - viajando, julgando salões, escrevendo livros e fazendo palestras -, a descentralizar e dar visibilidade à produção plástica de fora do eixo Rio-São Paulo.

Extermínio da crítica
Antes da Conversa, em entrevista exclusiva, lamentou que a mídia impressa no Brasil tenha cada vez menos interesse em discussões mais analíticas e "faça uma aposta no tal leitor mediano". Com isso evidentemente mediocriza, não dá problemas ao leitor. A pretexto da notícia, não há espaço crítico ou, cada vez mais, de forma rarefeita. Para a cultura é dramático, segundo ele, certo de que ainda há alguns cadernos, alguns bolsões que ainda resistem, mas o sentimento é de que a idéia é de exterminar, acabar com a crítica. "Os jornais estão cada vez mais superficiais" , considerou.

Na medida em que esse espaço foi perdido na mídia, sobra aos críticos uma modalidade de atuação que é o trabalho de quem tem uma interlocução com o artista e escreve sobre ele a partir de catálogos ou exposições realizadas. Neste caso, observa Farias, há uma adesão sobre a obra, o que não significa algo irrestrito, sem reservas. O fato do texto crítico ser pago por uma galeria impõe estreitos limites, mas não impede grandes diálogos, excelentes interlocuções, como a própria história comprova com Mario Pedrosa e Lygia Clark, Ferreira Gullar também com Lygia, Tadeu Chiarelli com a geração dos anos 1980-90 e tantos outros exemplos. "Essa interlocução é interessante para ambas as partes, mas de fato a dimensão pública de questionar uma obra de arte se perdeu."

Inquietude e destravamento
Há que se fazer distinções. A atuação do crítico nasce de uma proximidade com o trabalho artístico, um fascínio pela obra e uma inquietude no sentido de deixar destravar, de fazer verter aquilo que ela estimula dentro de si, porque tem relações, espectros, dimensões, extratos que são destravados pelas circunstâncias, pelos lugares e pelas experiências. Já o papel do curador, por sua vez, se diferencia e tem outros problemas, como o relato de uma determinada história que interessa contar, a escolha de obras, como elas são entendidas, como se relacionam e equacionam dentro do espaço. "A curadoria convida a sair por aí, ver o que está sendo feito, tarefa deliciosa, fascinante, mas também muito cansativa."

Ambas as atividades são contaminadas pela experiência artística, que obriga "você a se reinventar de certo modo". Curadoria sem atrito? É possível, considera Farias, mas também pode ser profundamente conflituosa sob os mais variados aspectos. A tarefa pressupõe conceito, nexo, é preciso demonstrar o que articula os trabalhos, o conjunto das obras, a visão do todo. O criador vê com parcialidade o processo, o que é compreensível, porque se trata da própria obra. Só não há mais conflito porque os artistas, ao contrário dos músicos e de outras categorias, são pouco exigentes, não se atritam. "Eles são muito dóceis, muito concessivos, acham que é melhor não brigar, porque isso pode se voltar contra eles. Fazem, às vezes, concessões absurdas." Alguns não precisam de curadoria, como é o caso de Amélia Toledo, em exposição no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), em Florianópolis, mas outros sim, porque aquilo mexe tanto com eles que não conseguem ter distanciamento, necessitam de alguém para servir como interlocutor ou fazer algo que não tenham coragem, como cortar algum trabalho.

Farias nunca se arrependeu como crítico ou curador, embora já tenha ocorrido de não gostar da obra apresentada por um artista que integrou a Bienal de São Paulo. Diz não se dar tanta importância assim, ao ponto de se arrepender. "O mais importante, a fonte de tudo é o artista, ele é o cara do processo e o meu papel de curador é dar visibilidade à obra dele. O que mais me satisfaz é criar condições para que ele realize o trabalho. Uma boa curadoria é aquela que consegue fazer com que o artista realize algo. Se errou não tem problema, é da lógica do jogo, de qualquer produção. Já falei com artistas, 'isso está errado, o seu ponto vista está equivocado, há coisas demais, mas se acha que é assim, faz, porque é você que manda'."

Tiroteio
Outros dois pontos abordados: as mudanças no mercado e o papel das associações e entidades, como a Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA) e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), entre outras.

O desaparecimento da crítica na mídia impressa e o crescimento do mercado artístico determinaram modificações na relação entre criadores e críticos, antes interlocutores privilegiados. Hoje os artistas buscam o mercado, nem todos, por mais que possa ser positivo, estão interessados no fato de ter alguém falando sobre o trabalho ou não. "Mas produzem para os curadores, que freqüentemente são críticos que migraram para a curadoria, o que também não quer dizer que todos os críticos tenham se convertido em curadores e que todos os curadores sejam críticos. Todo curador deveria ser um crítico, mas não é assim."

Farias lembrou que há curadores mal formados, muito ignorantes e que sequer sabem escrever sobre o trabalho, "uma barbaridade só possível num país como o Brasil". Acima de tudo, precisa saber escrever. Não adianta nada saber montar coisas e escrever mal. "Eu diria até o seguinte: antes escreva bem, pelo menos será lido. E isso as pessoas descuidam. Falamos mal e escrevemos pior ainda. É trágico como falam mal, é trágico como não sabem escrever, porque as escolas foram penalizadas, não temos uma formação sólida e consistente e também porque desprezamos os livros."

A tarefa analítica exige muito conhecimento. Em relação à arte contemporânea, fica mais complicado porque uma das marcas desta produção é o número de disciplinas evocadas. "O cara tem de saber muito para dar conta do recado." Para analisar a obra de Marepe, por exemplo, terá de entrar na dimensão de sua cidade, no que é regional, no que é popular, no diabo a quatro. No trabalho de Fernando Lindote deverá abordar o problema do corpo, a poética da Lygia Clark, se entrar no de Tunga deve buscar uma abordagem mais surrealista, o que é imaginação, o imaginário. Igualmente, situa ele, é possível ler a obra a partir da psicanálise, de questões formais, da política, da economia.

Concessões inacreditáveis
Sobre o papel das associações e entidades de classe, como a ABCA e outras, Farias acha que elas só servem para ofertar comendas e premiações, com diretorias que geralmente fazem concessões inacreditáveis e, regra geral, têm uma visão muito romântica, completamente anacrônica. "É paroquial, não há outra palavra. É lamentável", define ele. Reconhece os embates que já teve com algumas entidades, recusando inclusive um prêmio da APCA, e faz a ressalva de que há gente boa neste universo.

Texto publicado originalmente no site Cultura e Mercado, no dia 20 de junho de 2006 (http://www.culturaemercado.com.br/).

Néri Pedroso
19/06/2006
Postado por: Sicília Calado

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